Digitalização como tradução material: A tipografia líquida de ‘The Art of Google Books’

Tabelas que se contorcem, linhas de texto que ondulam como um rio ao longo da página, tipos que crescem e diminuem num balé entontecedor: essa é a beleza das imagens destacadas em The Art of Google Books. Ali, a artista plástica Krissy Wilson extrai, das “falhas técnicas” da digitalização do gigante Google, uma poesia: a poesia da quebra da opacidade pretendida pela representação digital.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com

Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

É como se, ao longo de uma leitura que já se fazia confortável, subitamente, pelo encontro de uma dessas “falhas”, fossemos acordados do nosso sonho de estar lendo um livro renascentista sobre a previsão do tempo, e percebessemos por um breve instante, meio chocados, que estávamos apenas diante de uma representação do livro. Esse atordoamento provocado pela falha faz um corte no fluxo estável programado para a nossa fruição do objeto representado, e nos faz ver, através do corte, as entranhas do processo que tentou trazer aquele livro para a sala da nossa casa, percorrendo quilômetros de terra (e mar) e cinco séculos de tempo.

http://books.google.com.br/books?id=PXAaAQAAMAAJ

Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Screenshot de http://books.google.com.br/books?id=PXAaAQAAMAAJ

As imagens destacadas pela artista entre as muitas falhas que podemos observar em páginas de livros escaneados nos remetem à delicada relação entre os objetos “digitalizados” e seus originais, sucitando a pergunta: o que estamos fazendo, afinal, quando digitalizamos livros impressos? A digitalização, mais que uma simples cópia, é uma representação, um processo de reprodução que envolve uma profunda transformação no objeto representado.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com/

Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

O meio digital tem propriedades fundamentalmente distintas do meio a que pertenciam os objetos que se pretende representar, e na ponte entre um e outro meio reside a arte da representação pela digitalização. No campo da crítica textual, ainda não se formou um vocabulário técnico respeitável para lidarmos com essa nova forma de “cópia”. Eu mesma já propus o termo “Tradução Material” [i], sugerindo que a relação entre o objeto digital e seu original é semelhante à relação entre um texto traduzido e seu original. São e não são “o mesmo texto”: e a ilusão da similitude, quando obtida, é simplesmente a manifestação mais clara do bom resultado da representação – assim como, em um texto bem traduzido de uma língua para outra, o efeito da língua original se oblitera, foge à nossa percepção, pela boa arte do tradutor. Assim, nesses dois processos de tradução está em jogo a arte de produzir a ilusão da não-representação. Nesse sentido, quanto mais um livro digitalizado apresentar-se “igual” ao objeto impresso, maior terá sido o esforço da representação – mais perto se terá chegado da opacidade pretendida pela técnica.

Nesse sentido é que o olhar de Wilson em The Art of Google Books é singular. A artista enxergou, nas páginas distorcidas dos livros digitalizados, a brecha da “tradução manca”: aquele ponto de “erro” que nos revela o processo que quer operar na opacidade da perfeição técnica – a fábrica de representações se revelando transparente, como se revelaria um feixe de luz que se quisesse cobrir com um tecido fino demais.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com

Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

Podemos ainda, é claro, ver a coleção de imagens reunida pela artista como um alerta sobre a baixa qualidade dos procedimentos adotados pela gigante corporativa Google em seu projeto de digitalização massificada e global (a própria artista reconhece que sua iniciativa pode ser abordada neste viés, em recente entrevista à coluna Art Beat).

Outros observadores da “arte das falhas” também incluem esse viés crítico. Destacaríamos, aqui, o fantástico “Google Hands“, de Benjamin Shaykin – livro inteiramente dedicado às imagens surreais e perturbadoras de mãos sobre páginas de livros digitalizados coletadas pelo artista.

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/12/the-art-of-google-book-scan.html

“Special Collection”, 2009. Benjamin Shaykin. Photo by the Library of the Printed Web. Disponível em http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/12/the-art-of-google-book-scan.html

As imagens do livro de Shaykin parecem levar a um corte ainda mais violento que o das tabelas dançantes – pois, aqui, já não se trata simplesmente de uma distorção revelando o efeito da tradução material, mas sim da interferência brutal de um objeto externo ao livro, mostrando-nos, muito cruamente, o caráter de “fábrica de imagens” por trás do Google Books.

Segundo  esta ótima matéria na revista The New Yorker, já se pode falar em uma subcultura de colecionadores de “Google Hands”, artistas e observadores obcecados, como Shaykin, na reunião dessas imagens. As “Google Hands“, entretanto,  são apenas o lado mais visível dos efeitos da digitalização em massa sobre a qualidade do material digitalizado hoje disponível na rede mundial de computadores.

Temos, hoje, um volume inacreditável de livros à disposição para leitura, transmutados de seus suportes originais para dentro das telas dos nossos computadores pessoais. Os lados positivos desse processo nem precisam ser mencionados; mas, como saldo negativo, temos os problemas de qualidade que surgiram com o aumento no ritmo das digitalizações. A qualidade das imagens é apenas um deles (nem começaremos, aqui, a mencionar o problema da qualidade da catalogação dos livros).

The Art of Google Books, entretanto, consegue olhar esse universo com arte e delicadeza – é um álbum que vale a visita.

………………………………………

[i] PAIXÃO DE SOUSA, M. C. Humanidades Digitais: O digital e as novas formas de construção do conhecimento. Comunicação ao Seminário Internacional Sistemas de Informação e Acervos Digitais de Cultura. São Paulo, 12 de março de 2013. Gravado em vídeo – Canal da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, 
http://youtu.be/m0s-iAfZPDE

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