De laude scriptorum manualium

(uma provocação)

Sem os escribas, a escrita não estaria garantida por muito tempo; seria destruída pela sorte e corrompida pela passagem dos anos. O livro impresso é apenas um artefato de papel, e em pouco tempo se desintegrará inteiramente. Mas o escriba que desenha cuidadosamente as letras no pergaminho alonga a sua própria vida, e a das letras, por séculos. Irmãos! Nenhum de nós deve pensar, ou dizer, ‘Por que devo me cansar em escrever a mão, se a arte da imprensa trouxe já tantos livros à luz, de modo que podemos reunir uma grande biblioteca a tão baixo custo?‘ De fato, quem quer que diga isso está tentando apenas ocultar sua própria preguiça. Quem não sabe quão grande é a distância entre um livro manuscrito e um livro impresso? A escrita no pergaminho pode durar mil anos – mas no papel, quanto durará? Será já um grande feito se um volume de papel durar duzentos anos. 

A posteridade julgará esta questão.


Johannes Trithemius, De laude scriptorum manualium, 1492
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Da publicação

Publicado no blog HD.br em 18/09/2014

Um estudo recente da American Academy of Arts and Sciencesevidencia um problema extremamente interessante no campo das humanidades, e que tem sido menos discutido do que poderia – o estatuto atual do nosso conceito de “publicação“. Segundo o estudo, entre os critérios para a ascensão de carreira para pesquisadores nas humanidades nos EUA, “publication” é considerado essencial, e “public humanities” é o menos valorizado – sendo as tais “humanidades públicas” definidas como “making the humanities and/or humanities scholarship accessible to the general public“.

Detail of a miniature of a scribe demonstrating to his pupils, from Jean Corbechon’s translation of Bartholomaeus Angelicus’ De proprietatibus rerum, France (Paris?), 1st quarter of the 15th century, Royal MS 17 E III, f. 209r - http://britishlibrary.typepad.co.uk/digitisedmanuscripts/2014/06/the-burden-of-writing-scribes-in-medieval-manuscripts.html#sthash.Bn9DoJgp.dpuf
Detail of a miniature of a scribe demonstrating to his pupils, from Jean Corbechon’s translation of Bartholomaeus Angelicus’ De proprietatibus rerum, France (Paris?), 1st quarter of the 15th century, Royal MS 17 E III, f. 209r – http://britishlibrary.typepad.co.uk/digitisedmanuscripts/2014/06/the-burden-of-writing-scribes-in-medieval-manuscripts.html

Duas coisas chamam a atenção: primeiro, que tornar a produção acadêmica acessível ao público geral não é valorizado; “publicar”, sim. E mesmo antes disso: já a separação dos dois critérios – publicar, de um lado, e tornar acessível ao público “geral”, de outro, já nos mostra que publicar não é o mesmo que tornar público. Vemos aí, explicitada de modo raro, a complexidade do uso do termo “publicar” no ambiente acadêmico atual. Não conheço estudos semelhantes para outros países – mas a experiência acadêmica cotidiana e a convivência com os critérios de pontuação de carreira e pesquisa no Brasil podem nos mostrar facilmente que, pelo menos por aqui, a situação não é diferente: ganham-se pontos por “publicar“, mas não se ganham pontos por publicar… publicamente. Isso pode nos fazer refletir, de fato, sobre o que significa, hoje, publicar. Continue lendo “Da publicação”