O que é um MOOC?

Os “MOOCs”  – cursos online abertos e dirigidos a um público amplo (na sigla inglesa para Massive Online Open Course) – têm se multiplicado em  ritmo acelerado pela rede nos últimos anos. O ano de 2012, por sinal, foi apelidado de “o ano do MOOC” por diversos blogs e redes sociais, inspirando também algumas reportagens na mídia impressa.

A rápida disseminação dessa forma de acesso ao conhecimento nos coloca diversas questões interessantes: os MOOCs são mais uma ‘onda’ da internet, ou são exemplos de novas e revolucionárias formas de relação com o conhecimento? Para podermos debater isso, vamos começar fazendo um perfil geral desse estilo de aprendizagem “à distância”.

Portal de MOOCs, Berkeley http://webcast.berkeley.edu/
Portal de MOOCs, Berkeley

Em primeiro lugar importa notar uma certa diversidade dentro daquilo a que se denomina um “MOOC”. De fato, existem MOOCs ligados a programas universitários (como os de Harvard, de Yale, da UCLA/Berkeley e do pinoneiro MIT) e MOOCs independentes (como aqueles encontrados no Udacity e no Blackboard). Ainda, entre os MOOCs das grandes universidades, existem aqueles inteiramente abertos à participação do público, e aqueles dirigidos aos alunos da universidade (ou, ao menos, a alunos inscritos e cadastrados), que resultam em certificados e “créditos”, como qualquer disciplina “presencial”.

edX
Plataforma edX

Além disso, é interessante notar que alguns cursos são realizados em plataformas de Acesso Aberto sem fins lucrativos (emblematicamente, a edX, que abriga os cursos do MIT, de Harvard e de Berkeley, por exemplo); outros são encontrados em plataformas fechadas que visam lucro (como a Coursera, que inclui os cursos de Princeton e Stanford, e a Blackboard). Entretanto, mesmo nas plataformas privadas, os cursos são gratuitos para quem os assiste – o lucro vem da compra de softwares ou do aluguel da plataforma, da parte de empresas que desejem montar cursos.

Na comunidade original dos idealizadores dos MOOCs, entretanto, a vocação da ideia é para o acesso aberto irrestrito e sem visar o lucro. É esse o ideário que segue sustentando as grandes plataformas abertas, como a edX – fundada por pesquisadores do MIT e de Harvard que tanto oferecem cursos como pesquisam as formas de ensino-aprendizado em rede. Esses pesquisadores lançaram o edX em 2012 justamente como reação política à crescente comercialização dos provedores de MOOCs.

Vídeo do curso "The hero in ancient greek civilization", Prof. Gregory Nagy, Harvard.
Vídeo do curso “The hero in ancient greek civilization”, Prof. Gregory Nagy, Harvard

Quanto ao formato dos cursos, os MOOCs podem incluir basicamente três tipos de atividades (todas em rede, é claro): apresentações gravadas em vídeo, fóruns de discussão e atividades de avaliação. As tecnologias envolvidas nas atividades de avaliação renderiam, por si sós, um novo post (em alguns casos, incluem a realização de provas em casa, com monitoramento por câmeras). Entretanto, tipicamente um MOOC é composto pelo material em vídeo e pela plataforma interativa, muitas vezes sem a atividade avaliativa  – é o caso da maioria dos cursos independentes, ou seja, não ligados a Universidades, e que não “certificam” os alunos.

Assim, fundamentalmente, o que distinguiria um MOOC de uma palestra gravada e disponível online – e mesmo, das plataformas dedicadas à divulgação de palestras online, como a famosa TED – é que um MOOC é desenhado para ser uma experiência interativa.

Vídeo do curso "Einstein for the masses", de Yale, disponível no YouTube
Vídeo do curso “Einstein for the masses”, Prof. Ramamurti Shankar, Yale, disponível no YouTube (com 111.085 acessos)

O interessante, para a nossa discussão, é que os MOOCs de conteúdo aberto, mesmo quando são originalmente produzidos por instituições de ensino tradicionais, acabam se desvinculando das suas “almas-mãe” originais. Essa perda de vínculo se pode medir, inclusive, pelo fato de que muitos cursos preparados nas plataformas “oficiais” acabam disponíveis em portais gerais, como o YouTube, onde podem ser acessados ainda mais amplamente  – e muitas vezes, de forma desconectada em relação aos demais conteúdos preparados por quem idealizou o curso.

Assim, seja nas plataformas abertas, seja simplesmente no YouTube, qualquer pessoa com acesso à internet (e à língua inglesa…) pode assistir, por exemplo, aos vários cursos online preparados por professores de universidades de elite dos EUA, como Harvard ou Yale, sem ter nenhum tipo de ligação com essa universidade. Esse internauta, natuaralmente, não terá um “certificado” por ter “cursado essa disciplina“… Mas, ao que parece (por exemplo, pelo alto número de acessos que alguns cursos têm no YouTube), grande parte das pessoas que assistem aos cursos online não tem nos diplomas seu maior objetivo.

É isso o que leva alguns a declararem que os MOOCs são mais que uma onda, uma moda da internet – representariam, de fato, uma tendência para o futuro da relação das pessoas com o conhecimento.

http://www.youtube.com/watch?v=eW3gMGqcZQc
“What is a MOOC?” – Dave Cormier

Essa é, por exemplo, a perspectiva do educador Dave Cormier, explicada neste vídeo:

“Um MOOC é um curso aberto, participativo, distribuído e aberto – não é simplesmente um curso online, é um evento em torno do qual pessoas que se interessam por determinado assunto se reúnem e refletem sobre esse assunto”.

Se abraçarmos essa perspectiva dos MOOCs como nova forma de busca pelo conhecimento (bastante disseminada nos debates na rede), teremos aspectos muito interessantes a considerar. A possibilidade de acesso às “aulas” de forma irrestrita e desvinculada de outros materiais didáticos,  por exemplo, significa que as escolhas pendem muito fortemente para o lado do “aluno” – a escolha dos assuntos, da ordem pela qual serão tratados, das “aulas” que precisam ser assistidas e das que não precisam. Assim, quase que podemos questionar a denominação “cursos”, já que essas experiências de aprendizado não dependem de um programa pré-estabelecido, ou seja, não configuram exatamente um “curso” (= caminho) programado por um professor.

Assim, vou precisar fechar o post com a pergunta que comecei: afinal – o que é um MOOC?


Lista de Links

Exemplos de Moocs em grandes universidades:

Plataformas:

Reportagens

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“La educación prohibida”: Copyleft e cultura do compartilhamento

O documentário La educación prohibida estreia hoje em Buenos Aires e em todos os lugares do mundo, pelo site http://www.educacionprohibida.com. O filme, que integra mais de 90 entrevistas com educadores, oferece um questionamento da lógica da escolarização atual e mostra iniciativas educacionais inovadoras em 45 países.

No site do projeto, a primeira tela do filme anuncia: “É permitida e incentivada a cópia, modificação, tradução e exibição pública deste filme, desde que não exista finalidade de lucro (…) – Copyleft: A cultura se protege compartilhando“. O documentário foi idealizado por jovens estudantes argentinos e co-produzido por 704 doadores, pelo sistema de Financiamento Coletivo ou Crowdfunding, ou seja, pela contribuição espontânea feita por internet.  Continue Lendo ““La educación prohibida”: Copyleft e cultura do compartilhamento”

Digitalização dos acervos públicos europeus: Um balanço da década

A GLAM – Open Galleries, Libraries, Archives and Museums – é uma rede global de instituições dedicadas a construir o acesso aberto a seus acervos, como parte da Open Knowledge Foundation, e em parceria com a DM2E, a Comissão da União Europeia responsável por fomentar o acesso livre ao patrimônio cultural do continente por meio da Europeana. No site da GLAM, neste mês, há um artigo muito interessante sobre o estado atual dos esforços de digitalização dos acervos públicos europeus nesta última década. Veja o texto completo: The state of digitazition, por Joris Pekel.

Ler “A Prosa do Mundo” hoje

Campanella, De Sensu Rerum et Magia Libri Quatuor
T. Campanella, De Sensu Rerum et Magia Libri Quatuor, 1620

Como apoio para as conversas na nossa Roda de Leitura desse mês, preparamos uma lista de reproduções digitais de dezessete livros citados por Michel Foucault em A Prosa do Mundo, o capítulo II de As Palavras e as Coisas. Esta lista inspira um comentário.

Imagino a leitura de A Prosa do Mundo acontecendo na forma de pelo menos dois gestuais, cada um deles compondo uma experiência inteiramente singular (como, de resto, acontece com qualquer leitura – mas aqui condenso este caso, acompanhando nossa Roda). O primeiro gestual seria o de quem percorre o texto do início ao fim sem suspender seus olhos. O segundo seria o de quem interrompe o percorrer do texto a cada tanto, e suspende os olhos em busca das obras comentadas por Foucault. Continue Lendo “Ler “A Prosa do Mundo” hoje”

Carta de Apresentação

Mappa da exportação dos effeitos que sahirão pela Barra da Parahiba desde 87 té 97. Figueiredo, Inácio José Maria de (grav.) Lisboa: Na Officina da Casa Litteraria do Arco do Cego, 1799. Arquivo digital da Brasiliana USP.

O Grupo de Pesquisas Humanidades Digitais é formado por pesquisadores interessados em explorar e interrogar a produção, a organização e a difusão da informação no meio digital.

Estamos construindo nossas interrogações como ação crítica e criativa. Incluímos em nosso horizonte duas perspectivas integradas: a reflexão teórica sobre as questões colocadas pelos novos meios de difusão da informação para o problema histórico e epistemológico da construção do conhecimento, e a experimentação em torno de novas formas de acesso, organização e processamento da informação. Continue Lendo “Carta de Apresentação”