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500 anos de alemães no Brasil

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Imagem 211 Em 7 e 8 de maio, acontece o Simpósio 500 Anos de Alemães no Brasil, realizado pela Área de Língua e Literatura Alemã do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, inaugurando a exposição Iconografia na Coleção Mindlin de Livros Alemães do Século XVI ao Século XX – ambos na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. A programação completa do Simpósio está disponível em http://sce.fflch.usp.br/node/1711. Os eventos, complementares, são promovidos por duas equipes: o Grupo de Pesquisas RELLIBRA – “Relações Linguísticas e Literárias Brasil-Alemanha”, fundado e certificado em 1993, credenciado na USP e no CNPq, coordenado pela Profa. Dra. Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa (DLM-FFLCH-USP); e a equipe de Catalogação, descrição e edição de documentos impressos em língua alemã na Brasiliana Digital, coordenada pelo Prof. Dr. José da Silva Simões (DLM-FFLCH-USP), vinculada ao Grupo de Pesquisas Humanidades Digitais, também cadastrado como grupo de pesquisa no CNPq, e sediado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin entre 2011 e março de 2014.

Ilustração em "Nova genera et species plantarum [...]" . Arquivo Digital da Brasiliana USP, http://www.brasiliana.usp.br/node/1102
Ilustração em “Nova genera et species plantarum […]” . Arquivo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mildlin,  USP.
O Grupo de Pesquisas Humanidades Digitais anuncia esses eventos com muito orgulho. O trabalho com a – riquíssima – coleção de textos em alemão no acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP começou, em 2010, no âmbito de nosso Grupo, com a chegada do Prof. José da Silva Simões, que coordenou diversos projetos dedicados a apoiar a Biblioteca na catalogação das obras escritas em alemão entre 2010 e 2014. São produtos dessa época diversos trabalhos de tradução e adaptação de obras em alemão do acervo da BBM, alguns deles anunciados neste blog (aqui, aqui, e aqui). Esse nosso orgulho em anunciar o evento vem de dois lados (aparentemente) opostos. Primeiro, um lado mais imediato e compreensível (e de fato, um pouco maternal) – o orgulho de ver a competência, a relevância e a beleza de um projeto nascido no contexto do ambiente de pesquisas que tentamos implementar na Biblioteca desde 2009 – de fato, quatro anos antes do edifcio que a abriga ser inaugurado, em 2013.

Tatuagem tradicional de habitante de Nukuhiwa. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP, acesso em 03-julho-2013
Tatuagem tradicional de habitante de Nukuhiwa. Arquivo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, USP.

Segundo, um lado diametralmente oposto –  o orgulho agridoce de ver uma criança crescer e caminhar, independente, pelo mundo. Pois hoje os projetos da área de tradução em língua alemã originalmente abrigados em nosso grupo ganham novas dimensões, autônomas e maduras, como é esperado dos bons projetos. Muito além dos objetivos originais do nosso grupo – que se focavam, fundamentalmente, na extroversão do acervo com base nas tecnologias digitais – os projetos na área de alemão agora alcançam novos horizontes, muito mais amplos, como se vê nesse Simpósio e na sua discussão extremamente rica sobre a presença dos alemães no Brasil desde o século XVI. Assim deve ser – assim é o destino das boas – das excelentes – parcerias de pesquisa. Nesse contexto, nos permitimos aproveitar das prerrogativas do orgulho materno para salientar a felicidade do encontro entre a Biblioteca  Mindlin da USP e o grupo responsável pela organização deste Simpósio, capitaneado por José Simões e Celeste Ribeiro de Sousa. Esses pesquisadores chegaram, magistralmente, a um objetivo que poucos atingem (um objetivo a que poucos, de fato, almejam): transformaram uma latência em uma potência. Ou seja: transformaram o tesouro escrito em alemão encerrado no acervo da Brasiliana Mindlin da USP em um universo vivo, trabalhável, muito além da latência – transmutação, que, afinal, é própria do milenar ofício da tradução, e do muito mais recente ofício da digitalização. Trata-se, nos dois casos de traduzir  – afinal – num sentido profundo.

Mensageiro da província de Jaén Bracamoros (Detalhe). No livro Des Freiherrn Alexander von Humboldt und Aimé Bonpland Reise (…), Volume 4. Acervo da Brasiliana USP.
Mensageiro da província de Jaén Bracamoros (Detalhe). No livro Des Freiherrn Alexander von Humboldt und Aimé Bonpland Reise (…), Volume 4. Acervo da Brasiliana Guita e José Mindlin, USP

O nascimento dessas obras em nova forma – em novo formato, em nova língua, em novo momento histórico- representa, assim, a tarefa mais solene das humanidades desde a antiguidade – e-ditar, trazer à luz. A tradução, entretanto, está talvez entre as mais injustiçadas das artes (traduttore, traditore!), certamente por culpa da nossa incompreensão frente à tarefa imensa e dilacerante do tradutor, esse transmutador – esse alquimista das idéias. A digitalização, notemos, não é menos incompreendida, e não é menos injustiçada. E envolve, também ela, uma alquimia, uma transmutação poderosa: do papel para a tela, dos traços em pena para os bits – uma tradução material. O trabalho do tradutor-digitalizador, portanto, talvez esteja entre os mais ingratos, entre os menos apreciados… Mais uma razão para o nosso aplauso, nossa admiração e nosso orgulho pelo trabalho dos tradutores-digitais dos projetos da área de alemão do nosso Grupo de Pesquisas, e por seu Simpósio. Parabéns a todos! Aguardamos o Simpósio e a exposição com grande antecipação.

“Antigas páginas acadêmicas…”

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Revista de Medicina, 1916, Volume 1, numero 2. Capa. Disponivel em http://www.revistas.usp.br/revistadc/issue/view/5028

 Antigas páginas acadêmicas: Portal da USP traz a coleção completa de algumas das primeiras revistas científicas editadas em suas faculdades | Revista Pesquisa Fapesp, ed. 213 – Novembro de 2013 – Marcos Pivetta

Artigo na Revista Fapesp deste mês aborda o projeto de digitalização das primeiras revistas científicas da Universidade de São Paulo: “Neste mês de novembro o Portal de Revistas da Universidade de São Paulo (USP) torna disponível na internet a coleção completa de alguns dos primeiros periódicos científicos produzidos por faculdades dessa instituição. Os títulos mais velhos remontam ao fim do século XIX ou ao começo do XX e alguns foram lançados por unidades acadêmicas que existiam antes do advento da USP, em 1934, e à universidade foram incorporadas no momento de sua criação. No endereço www.revistas.usp.br poderão ser encontrados todos os números de periódicos como a Revista da Faculdade de Direito de São Paulo – a mais antiga da coleção, que começou a ser editada em 1893 e permanece até hoje viva – ou a Revista de Medicina, da Faculdade de Medicina, criada em 1916 e igualmente ainda impressa“. Leia o artigo completo na Revista Pesquisa Fapesp.

Expedição Langsdorff na Brasiliana Digital

Tatuagem tradicional de habitante de Nukuhiwa. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP, acesso em 03-julho-2013
Tatuagem tradicional de habitante de Nukuhiwa. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – USP, acesso em 03-julho-2013

Como parte dos nossos projetos na área de tradução – alemão, a Brasiliana USP colocou no ar, recentemente, a produção publicada em 1812 e 1821 acerca das viagens filosóficas realizadas no período. É importante pontuar que tais viagens não ocorreram apenas em solo brasileiro:  “De volta à Europa, Langsdorff publicou dois volumes chamados Bemerkungen auf einer Reise um die Welt in den Jahren 1803 bis 1807 (Notas sobre uma viagem ao redor do mundo nos anos 1803-1807), títulos ilustrados pelo próprio autor, que tratam da fauna, flora e da etnografia da Califórnia, Havaí, Alaska, Nukuhiwa, ilhas do Pacífico, península do Kamtchatka e Japão. Em 1813 se mudou para o Brasil como Ministro Plenipotenciário Fedor Pahlen e assumiu o Consulado Geral da Rússia no Brasil. Em 1816, o barão de Langsdorff compra, no atual estado do Rio de Janeiro, a Fazenda da Mandioca, estadia obrigatória de diversos cientistas e naturalistas europeus que estiveram no Brasil nas primeiras décadas do século XIX e aí organizaram diversas expedições, entre os quais destacamos Spix e Martius, John Luccock, Emmanuel Pohl, Maximilian zu Wied-Neuwied, Saint-Hilaire e Friedrich Sellow”.

“A Expedição Langsdorff apresentou um caráter diferenciado em relação a outras expedições que percorreram o Brasil, pois além de estudar a flora e a fauna do país, os expedicionários dedicaram-se a pesquisar a etnografia e os idiomas das tribos brasileiras. A viagem foi custeada pelo czar Alexandre I da Rússia, país que buscava se igualar em importância às outras potências europeias no campo dos conhecimentos científicos. O barão reuniu, ao todo, 39 pessoas para a expedição e entre elas integraram o grupo artistas renomados, como os pintores Johann Moritz Rugendas, Hércules Florence e Aimé-Adrien Taunay, cujas reproduções da flora, da fauna e dos nativos brasileiros impressionaram a todos pelo rigor descritivo e pela beleza representada. O astrônomo Nestor Rubtsoz, o botânico Ludwig Ridel, e o naturalista Wilhelm Freyreiss também compunham esta equipe e muitas das espécies de plantas coletadas por Riedel foram expostas pela primeira vez na Flora Brasiliensis do botânico Carl Friedrich Philipp von Martius. A expedição teve como ponto de partida a província de Minas Gerais e depois rumou para o Brasil Central, seguindo por rio de São Paulo a Cuiabá, tomando, a partir daí, a direção norte, explorando a Amazônia e as cabeceiras e leito do rio Orenoco. Em 1825, a equipe saiu do Rio de Janeiro para Porto Feliz, na província de São Paulo em direção a Cuiabá….” . O artigo completo de Luciana de Fátima Candido está na Brasiliana Digital.

O dossiê biográfico nas Viagens Filosóficas

Dentro do grupo “Viagens, arte e ciência no Mundo Português” – no contexto dos nossos projetos na linha de História da Ciência –, a leitura da obra de Dosse surgiu como norteadora para a criação de um dicionário biobibliográfico, dentro do site da Biblioteca Brasiliana USP, com a finalidade de compilar os estudos realizados no mestrado e doutoramento da professora Ermelinda Moutinho Pataca.

Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
“Que arvore temos [na Europa], que possa por si só formar um bosque, como a bananeira, Rainha de todas, que abrange com seu império todas as três partes do mundo, África, e Ásia, e as Províncias subtropicais da América”. (Fazendeiro do Brasil, 1798).
Imagem: Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
O projeto pretende que a inserção do dicionário não apenas transmita informações de modo acumulativo, mas contribua para a comunicação entre diferentes conhecimentos que possam se encontrar nestas, e através destas, memórias.

A obra biográfica configura-se como gênero híbrido, travando uma busca pela imortalidade de seus personagens através do modo escrito. Esta “imortalidade” é gerada, então, não apenas pelos fatos concretos, que o biógrafo encontra documentado, mas por fatos que se ligam à memória – tanto a memória do autor sobre seus personagens, quanto por uma possível memória social – e, além deste, outro importante ingrediente é a empatia (ou falta de) entre a figura do narrador e do sujeito narrado.

Essa relação entre biógrafo e biografado transmite a importância da figura narrada: o fazer e refazer biografias de uma mesma personagem revela essa necessidade de ressaltar a importância de sua vida. A importância não se dá apenas pela incompletude da trama (já que cada biografia escolhe e anula certas informações), mas varia de acordo com os interesses contextuais da sociedade na qual o livro é escrito.

Desta maneira, a obra de François Dosse, “O desafio Biográfico”, compila a história da biografia, desde seu uso para ressaltar figuras exemplares – como heróis e santos – passando por um hiato biográfico, até o ressurgimento do gênero, e sua ascendência nas últimas décadas, revelando a importância da “memória de vida registrada”, seja como contribuição para a compreensão de uma vida isoladamente, ou então, enquanto meio para entender fatores que incentivaram movimentações históricas ao longo do tempo.

Neste contexto, por meio das biografias dos viajantes, tentaremos contribuir para uma visão ampliada dos quadros e imagens que a História Oficial do Brasil nos oferece. O acréscimo e disponibilização de tais informações relacionar-se-ão com os parâmetros de criação de nossa própria identidade, enquanto brasileiros. Este percurso de estudo do individual para enxergar sua contextualização social e, assim, o retorno ao individual para avaliar suas singularidades, nos ajudará a voltar ao nosso próprio interior, ou seja, nossa identidade cultural.

A partir da biografia dos viajantes Alexandre Rodrigues Ferreira e do Frei José Mariano da Conceição Veloso, iremos traçar as viagens filosóficas e as relações estabelecidas entre estudiosos, naturalistas, desenhistas, engenheiros, militares e governantes que contribuíram ricamente para os estudos científicos brasileiros entre os séculos XVIII e XIX.

Criaremos, assim, redes de relações e diálogos que eram travados entre os naturalistas, de modo a conhecer a formação e as metodologias de pesquisa criadas na época, no que se refere às Viagens Filosóficas. Para expressar tais relações, a escolha pelas biografias modais nos ajudará a compor nosso dicionário, pois seu estilo leva à compreensão do indivíduo ilustrado pelo coletivo. No caso das Viagens Filosóficas luso-brasileiras, ressalta-se o grupo social por concepções científicas, estéticas, políticas e sociais dos viajantes, que se encontram presentes em textos, cartas, guias para peregrinos, publicações de diário de viagens, mapas, iconografias, entre outros, e a relação obtida entre esses dados com a História das Ciências no Brasil.

A rede de relações será formulada, no dicionário, a partir da ideia de biografemas, na qual o momento instantâneo se registrará não pela linearidade dos fatos, mas por recortes temporais e espaciais a ser definidos na leitura dos materiais analisados, ampliando as fontes de informações para os estudos sobre a História do Brasil.

Na construção do dicionário biobibliográfico dentro do site da Brasiliana-USP, criamos quatro parâmetros que norteiam a elaboração dos textos no Projeto dos Viajantes: i) criatividade; ii) conteúdo; iii) inovação; e iv) comunicação. Os quatro itens são intersectivos, colaborando para a eficácia de nosso projeto em âmbito geral.

A criatividade é o parâmetro número 1, pois, através dela, elaboraremos meios de repassar os conteúdos (item 2) com a qualidade exigida e a dinamicidade que nos é oferecida, pensando no suporte virtual e dinâmico que abrigará o dicionário. Neste ínterim, propomos a criação de um mapeamento dessas viagens, nas quais as relações serão georeferenciadas através das perspectivas espaço-temporais.

A dinamicidade do meio virtual atravessa o item 3, de inovação, através de conceitos não abordados por Dosse, porém, com o intuito de encontrar novos meios para transmissão do conteúdo do dicionário não apenas aos grupos de pesquisadores especialistas no assunto – acadêmicos ou não – mas também visando um público de pesquisadores “amadores”, que busquem incrementar seu rol de conhecimentos na área.

Para isto, o quesito 4, de comunicação, se torna nosso foco principal, no qual elaboraremos a junção dos três itens anteriores, de modo que funcionem ativamente e não apenas como um banco de dados depositado na rede. A realização destes quatro parâmetros é essencial para a disseminação do que compreendemos como nossa colaboração para as Humanidades Digitais: pelo uso de ferramentas digitais modernas, como os metadados e a criação de marcações nos textos a ser mapeados, repensaremos a construção de uma identidade social na constituição de nosso país. Assim, a disponibilização destes conteúdos requer a comunicação com o público-alvo (e o aumento deste), justamente para que esta seja uma ferramenta somatória quando pensarmos em História e Formação do Brasil.

A criação do dicionário biobibliográfico não deve ser considerada um fim, entretanto, para a compreensão da História. O objetivo principal é a revisitação e a releitura dos dados construídos ao longo do tempo, os quais serão analisados e interpretados de modo heterogêneo e contínuo, em diferentes sociedades. A ideia de uma verdade plena não se concebe nesse pensamento, portanto, como define Dosse (2009:408): “A verdade sempre foi a ambição da escrita do historiador, ainda que seu modo de objetividade permaneça para sempre incompleto, enunciando-se numa linguagem sempre equívoca, tensionada entre o passado e o presente, a partir de uma subjetividade implícita num lugar e numa prática”.

Deste modo, o enigma da biografia sobrevive à ideia de uma biografia plena, ou seja, sempre há possibilidades para novas interpretações e revisitações das mesmas. As análises do grupo dos Viajantes ampliarão o conjunto de dados para pesquisas, através dos links criados na sistematização das referências compiladas pela professora Ermelinda Pataca, facilitando o acesso às informações mapeadas.


Texto por: Cristiane Borges de Oliveira (bolsista Aprender com Cultura e Extensão, Projeto Implementação de bancos de dados para dicionário bio-bibliográfico de viajantes portugueses na biblioteca Brasiliana USP  – graduada em Letras pela FFLCH-USP) e Fernanda Félix da Conceição (bolsista Ensinar com Pesquisa – graduanda em Pedagogia pela FE-USP,  Projeto “Projetos e práticas educativas de Frei José Mariano da Conceição Veloso”)

Referência: DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma vida. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: EDUSP, 2009.

O que é um MOOC?

Os “MOOCs”  – cursos online abertos e dirigidos a um público amplo (na sigla inglesa para Massive Online Open Course) – têm se multiplicado em  ritmo acelerado pela rede nos últimos anos. O ano de 2012, por sinal, foi apelidado de “o ano do MOOC” por diversos blogs e redes sociais, inspirando também algumas reportagens na mídia impressa.

A rápida disseminação dessa forma de acesso ao conhecimento nos coloca diversas questões interessantes: os MOOCs são mais uma ‘onda’ da internet, ou são exemplos de novas e revolucionárias formas de relação com o conhecimento? Para podermos debater isso, vamos começar fazendo um perfil geral desse estilo de aprendizagem “à distância”.

Portal de MOOCs, Berkeley http://webcast.berkeley.edu/
Portal de MOOCs, Berkeley

Em primeiro lugar importa notar uma certa diversidade dentro daquilo a que se denomina um “MOOC”. De fato, existem MOOCs ligados a programas universitários (como os de Harvard, de Yale, da UCLA/Berkeley e do pinoneiro MIT) e MOOCs independentes (como aqueles encontrados no Udacity e no Blackboard). Ainda, entre os MOOCs das grandes universidades, existem aqueles inteiramente abertos à participação do público, e aqueles dirigidos aos alunos da universidade (ou, ao menos, a alunos inscritos e cadastrados), que resultam em certificados e “créditos”, como qualquer disciplina “presencial”.

edX
Plataforma edX

Além disso, é interessante notar que alguns cursos são realizados em plataformas de Acesso Aberto sem fins lucrativos (emblematicamente, a edX, que abriga os cursos do MIT, de Harvard e de Berkeley, por exemplo); outros são encontrados em plataformas fechadas que visam lucro (como a Coursera, que inclui os cursos de Princeton e Stanford, e a Blackboard). Entretanto, mesmo nas plataformas privadas, os cursos são gratuitos para quem os assiste – o lucro vem da compra de softwares ou do aluguel da plataforma, da parte de empresas que desejem montar cursos.

Na comunidade original dos idealizadores dos MOOCs, entretanto, a vocação da ideia é para o acesso aberto irrestrito e sem visar o lucro. É esse o ideário que segue sustentando as grandes plataformas abertas, como a edX – fundada por pesquisadores do MIT e de Harvard que tanto oferecem cursos como pesquisam as formas de ensino-aprendizado em rede. Esses pesquisadores lançaram o edX em 2012 justamente como reação política à crescente comercialização dos provedores de MOOCs.

Vídeo do curso "The hero in ancient greek civilization", Prof. Gregory Nagy, Harvard.
Vídeo do curso “The hero in ancient greek civilization”, Prof. Gregory Nagy, Harvard

Quanto ao formato dos cursos, os MOOCs podem incluir basicamente três tipos de atividades (todas em rede, é claro): apresentações gravadas em vídeo, fóruns de discussão e atividades de avaliação. As tecnologias envolvidas nas atividades de avaliação renderiam, por si sós, um novo post (em alguns casos, incluem a realização de provas em casa, com monitoramento por câmeras). Entretanto, tipicamente um MOOC é composto pelo material em vídeo e pela plataforma interativa, muitas vezes sem a atividade avaliativa  – é o caso da maioria dos cursos independentes, ou seja, não ligados a Universidades, e que não “certificam” os alunos.

Assim, fundamentalmente, o que distinguiria um MOOC de uma palestra gravada e disponível online – e mesmo, das plataformas dedicadas à divulgação de palestras online, como a famosa TED – é que um MOOC é desenhado para ser uma experiência interativa.

Vídeo do curso "Einstein for the masses", de Yale, disponível no YouTube
Vídeo do curso “Einstein for the masses”, Prof. Ramamurti Shankar, Yale, disponível no YouTube (com 111.085 acessos)

O interessante, para a nossa discussão, é que os MOOCs de conteúdo aberto, mesmo quando são originalmente produzidos por instituições de ensino tradicionais, acabam se desvinculando das suas “almas-mãe” originais. Essa perda de vínculo se pode medir, inclusive, pelo fato de que muitos cursos preparados nas plataformas “oficiais” acabam disponíveis em portais gerais, como o YouTube, onde podem ser acessados ainda mais amplamente  – e muitas vezes, de forma desconectada em relação aos demais conteúdos preparados por quem idealizou o curso.

Assim, seja nas plataformas abertas, seja simplesmente no YouTube, qualquer pessoa com acesso à internet (e à língua inglesa…) pode assistir, por exemplo, aos vários cursos online preparados por professores de universidades de elite dos EUA, como Harvard ou Yale, sem ter nenhum tipo de ligação com essa universidade. Esse internauta, natuaralmente, não terá um “certificado” por ter “cursado essa disciplina“… Mas, ao que parece (por exemplo, pelo alto número de acessos que alguns cursos têm no YouTube), grande parte das pessoas que assistem aos cursos online não tem nos diplomas seu maior objetivo.

É isso o que leva alguns a declararem que os MOOCs são mais que uma onda, uma moda da internet – representariam, de fato, uma tendência para o futuro da relação das pessoas com o conhecimento.

http://www.youtube.com/watch?v=eW3gMGqcZQc
“What is a MOOC?” – Dave Cormier

Essa é, por exemplo, a perspectiva do educador Dave Cormier, explicada neste vídeo:

“Um MOOC é um curso aberto, participativo, distribuído e aberto – não é simplesmente um curso online, é um evento em torno do qual pessoas que se interessam por determinado assunto se reúnem e refletem sobre esse assunto”.

Se abraçarmos essa perspectiva dos MOOCs como nova forma de busca pelo conhecimento (bastante disseminada nos debates na rede), teremos aspectos muito interessantes a considerar. A possibilidade de acesso às “aulas” de forma irrestrita e desvinculada de outros materiais didáticos,  por exemplo, significa que as escolhas pendem muito fortemente para o lado do “aluno” – a escolha dos assuntos, da ordem pela qual serão tratados, das “aulas” que precisam ser assistidas e das que não precisam. Assim, quase que podemos questionar a denominação “cursos”, já que essas experiências de aprendizado não dependem de um programa pré-estabelecido, ou seja, não configuram exatamente um “curso” (= caminho) programado por um professor.

Assim, vou precisar fechar o post com a pergunta que comecei: afinal – o que é um MOOC?


Lista de Links

Exemplos de Moocs em grandes universidades:

Plataformas:

Reportagens

“Conhecimento Livre”

Open Access
Foto de Biblioteekje.

Não é de hoje que cientistas defendem a ideia de que o conhecimento precisa ser difundido de forma livre para que a sociedade possa apropriar-se dele.
Mas o acesso aberto começou de fato a frutificar a partir dos anos 1990 com o advento da internet e sua capacidade de distribuir informação com custo baixo.”

Conhecimento livre

Fabrício Marques
Revista Fapesp – Edição 201, Novembro de 2012

Este artigo na Revista Fapesp resume os debates mais recentes em torno da difusão livre (aberta e gratuita) da pesquisa científica no mundo, seguindo a repercussão da Semana Internacional do Acesso Aberto de 2012. Como mostra o artigo, há grandes contrastes quanto aos avanços e entraves à difusão livre da produção acadêmica nos diferentes países – vale destacar, nesse sentido, a recente iniciativa de um grupo de cientistas contra a editora holandesa (hoje, na verdade, transnacional) Elsevier, com o lançamento de um boicote que já compreende 12.963 assinaturas – cf. “The Cost of Knowledge“. Nas entrevistas com Jorge Guimarães (presidente da Capes), Rogério Meneghini (coordenador científico da biblioteca SciELO Brasil) e Pablo Ortelado (professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e membro do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação da universidade), o artigo destaca a trajetória brasileira, “única no mundo”, ainda que também marcada por contrastes, como observa Ortelado: “A USP começou a organizar um repositório com todas as teses e artigos de seus pesquisadores, mas não há muitos exemplos desse tipo no Brasil.” Além dos movimentos em curso na USP (veja mais em acessoaberto.usp.br.), destacam-se as políticas de acesso aberto conduzidas pela Fapesp (como a SciELO Brasil), pela Capes (como o Portal de Periódicos) e pelo Ibict (como o Diadorim, Diretório de Políticas de Acesso Aberto das Revistas Científicas Brasilieiras).

Open Access - The cost of knlwledge
The Cost of Knowledge – Cartum de Giulia Forsythe.

“O Fim do Livro”

O fim do livro já foi anunciado há mais de 150 anos

João Marcos Cardoso
Especial para o blog
Machado de Assis em 1864. Fotografia de Joaquim José Insley Pacheco (1830-1912). Arquivo da Academia Brasileira de Letras, http://www.academia.org.br

Em 1859, um jovem de 19 anos, defensor um tanto ingênuo dos princípios liberais e da crença inabalável no progresso que a eles se associava, publicou no jornal carioca Correio Mercantil dois artigos anunciando o provável fim do livro, cuja proeminência seria suplantada pelo jornal. O falso prognóstico dos textos e a juventude de seu autor teriam selado seu esquecimento se a assinatura Machado de Assis não os acompanhasse. Nesses dois artigos intitulados O jornal e o livro, não há praticamente nada que faça supor o grande autor de Memórias póstumas de Brás Cubas; ainda assim, tanto por suas virtudes quanto por seus defeitos, esses textos escritos por um Machado ainda crente nas ideologias de seu tempo têm muito a dizer sobre as mudanças do nosso tempo, que em vários pontos repetem os prenúncios do passado, como por exemplo o de que o livro em papel perecerá em breve.

Essas profecias já seculares interessam, em primeiro lugar, porque lá como aqui um meio de comunicação relativamente novo e promissor – a imprensa periódica no Segundo Império, as novas tecnologias de informação no séc. XIX – se desenha como uma ameaça a um meio que parece já não adequar-se a um novo ritmo histórico. Assim, diz Machado, o livro teria “alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal.”; é uma forma obsoleta que se depara com uma “locomotiva intelectual”. Contudo, olhando para trás, não há dúvidas de que apesar da “morosidade” do livro, ele não perdeu o passo da história diante da “presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual” que era o jornal impresso no séc. XIX. O dinamismo infinitamente potencializado das novas tecnologias de informação estariam em melhores condições para decretar o fim do livro, ao menos em sua forma tradicional?

As profecias interessam, em segundo lugar, porque Machado parece muito convicto de que a forma material pela qual o conhecimento é transmitido tem efeitos diretos na construção de seu sentido, na sua inserção em um dado meio social e cultural. Essa convicção é um dos pilares desses dois textos, pois em contraste com o livro, as características formais do jornal – “a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano” – estaria na base de uma “revolução na ordem social”: “O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização”. Aqui chega ao ápice a utopia liberal do jovem Machado de Assis, que via no jornal não só o arauto de um futuro democrático, mas sobretudo o agente que o realizaria. Não é preciso dizer que, olhando retrospectivamente, essa utopia se frustrou; nem o mais entusiasmado defensor do jornal impresso acredita ainda que ele possa realizar essa grandiosa missão.

Atualmente ninguém mais vê o livro e o jornal como rivais, mas ambos parecem ser ameaçados pelo espectro das novas tecnologias da informação, tidas e havidas por muitos como a melhor roupagem do espírito contemporâneo, e mais do que isso como a detentora de um novo projeto utópico. Esse novo formato do pensamento humano desbancará finalmente o livro (e o jornal) e realizará o projeto revolucionário em que o jornal fracassou um século e meio atrás? Algumas décadas depois da publicação desses dois textos, seu autor, já amadurecido e desencantado com as ideologias de seu tempo, talvez risse de seu otimismo juvenil e das predições que dele derivaram. O que diria o Machado maduro a respeito de predições contemporâneas que têm o livro como alvo e que são similares às da sua juventude por seu conteúdo e por seu otimismo?

Inteligência, criatividade, computação e ciência

Diagrama em: Samuel R. Wells. How To Read Character: A New Illustrated Handbook Of Phrenology And Physiognomy, For Students And Examiners; With A Descriptive Chart. Fowles & Wells: New York, 1873. hpp://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phrenologychart.png; Domínio Público.
Diagrama em: Samuel R. Wells. How To Read Character: A New Illustrated Handbook Of Phrenology And Physiognomy, For Students And Examiners; With A Descriptive Chart. Fowles & Wells: New York, 1873.

As fronteiras entre as assim chamadas ciências “exatas“, “naturais” e “humanas” tem perdido a nitidez em diversos campos de investigação; é certamente esse o caso da “Inteligência Artificial”. Um debate recente entre o linguista Noam Chomsky e Peter Norvig, diretor de pesquisas da Google, mostra os desafios epistemológicos deste campo de estudos dedicado à compreensão dos mecanismos da inteligência, e toca em alguns pontos interessantes para a reflexão sobre a relação entre as humanidades e as tecnologias computacionais, e quem vem sendo levantados também por algumas vozes críticas no campo das Humanidades Digitais.  Continuar lendo Inteligência, criatividade, computação e ciência

Acervos digitais e reconstrução de narrativas – o caso da divulgação científica.

Histórias para contar: Acesso a documentos digitalizados ajuda a reconstituir os percursos da divulgação científica no Brasil | Revista Pesquisa Fapesp, ed. 200 – Outubro de 2012

Este artigo da Revista Fapesp aborda  o impacto do surgimento dos acervos digitais nas pesquisas sobre a história da divulgação científica no Brasil, apontando para um processo muito interessante: a digitalização de alguns acervos importantes está mostrando que o que era tido por lacunas do jornalismo científico eram, na realidade, lacunas na informação disponível aos historiadores:  Continuar lendo Acervos digitais e reconstrução de narrativas – o caso da divulgação científica.

“O Todo e a Parte” | Roger Chartier, entrevista

O Todo e a Parte

Jornal Valor Econômico – Suplemento cultural
Entrevista de Roger Chartier a Amarilis Lage,
13/04/2012

O suplemento cultural do jornal Valor Econômico deste fim de semana traz uma entrevista com o historiador Roger Chartier, que discute como as diferentes formas de publicação podem conferir diferentes sentidos a uma obra –  em especial, Chartier fala sobre as novas formas de leitura no mundo digital.

Matéria completa: http://www.valor.com.br/cultura/2614020/o-todo-e-parte

As Humanidades e as tecnologias digitais: Uma provocação inicial

Maria Clara Paixão de Sousa


Ramelli, Agostino, 1531-ca. 1600. Le diverse et artificiose machine del capitano Agostino Ramelli
Ramelli, Agostino, 1531-ca. 1600. Le diverse et artificiose machine del capitano Agostino Ramelli… Beinecke Library, Yale

O estabelecimento das tecnologias digitais como ambiente de difusão da informação trouxe desafios importantes para as disciplinas ligadas às humanidades. O maior deles, talvez, seja o de  lidarmos com uma forma de organização da escrita e da leitura absolutamente nova, pois artificialmente mediada – falo de artifícios lógicos, e não mecânicos (como os idealizados por humanistas como Ramelli), por isso inéditos.

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