“Ciencias Sociales y Humanidades Digitales”

Ciencias Sociales y Humanidades Digitales. CAC, Cuadernos Artesanos de Comunicación, 61.
Romero Frías, E. y Sánchez González, M. (eds.) (2014). Ciencias Sociales y Humanidades Digitales (…). CAC, Cuadernos Artesanos de Comunicación, 61.

Ciencias Sociales y Humanidades Digitales: Técnicas, herramientas y experiencias de e-Research e investigación en colaboración” [1], lançado recentemente como livro digital para leitura aberta e gratuita, é um volume de grande interesse para o campo das Humanidades Digitais.

A publicação coletiva, iniciativa do Grupo de Aprendizaje e Investigación en Internet da Universidade de Granada (GrinUGR), pretende ‘difundir as pesquisas atualmente realizadas no campo das ciências sociais e das humanidades digitais em ambos os lados do Atlântico, refletindo assim a pluralidade de perspectivas que hoje em dia existem na comunidade acadêmica hispânica’ [2].

O livro é organizado por Esteban Romero Frías e María Sánchez González e prefaciado por Paul Spence e Nuria Rodríguez Ortega, e compreende doze capítulos, divididos em três grandes blocos: I. Investigaciones en torno al estado de la cuestión de las Humanidades Digitales y la e-Research y fenómenos afines estudio, II. Potenciales usos de Internet y de la Web social para la investigación en Ciencias Sociales y Humanidades, e III. Experiencias sobre investigación colaborativa y sobre enseñanza-aprendizaje en el contexto de la e-Research y las Humanidades Digitales. Os textos, em todos os blocos, estão unidos pelo objetivo central dos editores: mostrar, por meio da apresentação de projetos e da discussão metodológica e teórica, o estado da arte das Humanidades Digitais nos países de fala hispânica.

 De derecha a izquierda: Mapas temporales, pre-1990, pre-2000 y actual que muestra el crecimiento y la expansión global de las HD.
‘De derecha a izquierda: Mapas temporales, pre-1990, pre-2000 y actual que muestra el crecimiento y la expansión global de las HD’. Figura 2 em Ortega & Gutiérrez (2014:110).
Figura 6.
‘Vista general de las conexiones entre disciplinas identificadas’. Figura 6 em Ortega & Gutiérrez (2014:115).

Numa primeira leitura, interessou-nos particularmente o capítulo MapaHD. Una exploración de las Humanidades Digitales en español y portugués, de Elika Ortega e Silvia Eunice Gutiérrez. O capítulo mostra um mapeamento realizado por meio de uma pesquisa nos ambientes virtuais da comunidade ao longo de 2013 – e que incluiu as iniciativas em Humanidades Digitais no mundo de fala hispânica e os grupos e projetos no âmbito da língua portuguesa, como a AHDig, o nosso Grupo de Pesquisas Humanidades Digitais, e o I Seminário Internacional em Humanidades Digitais no Brasil. Assim, já conhecíamos a iniciativa de mapeamento das autoras, por termos participado do questionário amplamente divulgado nos ambientes virtuais da comunidade no ano passado.

Os resultados desse mapeamento são muito interessantes, não apenas pelos números apurados, mas sobretudo pela análise extremamente atenta e delicada realizada pelas autoras a partir deles.

Alguns dos aspectos que impressionam, nesse sentido, são o crescimento das iniciativas em HD na última década (de forma particularmente aguda desde o ano de 2013), o espalhamento dessas iniciativas por diversos países da Europa e da América (41 países ao todo), e a disposição interdisciplinar mostrada pelos pesquisadores identificados com as HD no mundo hispânico e lusófono (entretanto, com uma acentuada pendência para o eixo ligado às pesquisas com a língua: estudos literários, filologia e linguística).

Terminamos essa breve resenha recomendando enfaticamente a leitura de “Ciencias Sociales y Humanidades Digitales” a todos os interessados no campo das Humanidades Digitais, e congratulando seus editores pela iniciativa – tanto por conta da qualidade e relevância acadêmica do volume, como pelo projeto inovador e democrático do lançamento em formato digital amplamente disponível para leitura.

 

 

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[1] Referência completa:

Romero Frías, E. y Sánchez González, M. (eds.) (2014). Ciencias Sociales y Humanidades Digitales Técnicas, herramientas y experiencias de e-Research e investigación en colaboración. CAC, Cuadernos Artesanos de Comunicación, 61. Disponible en:
http://www.cuadernosartesanos.org/2014/cac61.pdf

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[2] Trecho traduzido da Página de lançamento:

“… dar difusión a las investigaciones que se están realizando en el campo de las Ciencias Sociales y Humanidades Digitales a ambos lados del Atlántico, reflejando así la pluralidad de perspectivas que hoy en día existen en la comunidad académica hispana“, cf. http://grinugr.org/biblioteca-de-medios/libro-ciencias-sociales-y-humanidades-digitales-tecnicas-herramientas-y-experiencias-de-e-research-e-investigacion-en-colaboracion/.

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Tudo ao mesmo tempo agora – o mapa sincronológico de Sebastian Adams

Adams' Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection
Adams’ Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection

O “Mapa Sincronológico da História Universal – pelos olhos da mente” [1] pode ser considerado o mais perfeito exemplo da fúria pela sintetização visual da história, com sua narrativa ilustrada de mais de cinco mil anos de eventos: de Adão e Eva no Paraíso, passando pela Torre de Babel, acensão e queda do Império Romano, formação das grandes dinastias europeias e orientais, grandes navegações, invenção da máquina a vapor… figuras e linhagens vão se desenrolando até chegar ao fim apoteótico do mapa: os primeiros presidentes dos Estados Unidos da América.

Adams' Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection. [Detalhe]
Adams’ Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection. [Detalhe]
Terreno rico para reflexões sobre as formas pelas quais as diferentes sociedades humanas constroem e representam suas narrativas – como por exemplo as de [2], [3] ou [4] (referências abaixo).

Adams' Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection. [Detalhe]
Adams’ Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection. [Detalhe]
O Mapa, projeto visionário do norte-americano Sebastian Adams, foi lançado em diversas edições entre 1871 e 1885, inicialmente como edição independente financiada por assinantes e ao final como grande sucesso de vendas (cf. [2]). Era composto na forma de um livro de cerca de setenta centímetros de altura contendo uma faixa de sete metros de comprimento – e podia ser visualizado no próprio livro, abrindo-se a faixa por partes; ou a faixa podia ser retirada e pendurada em (grandes) paredes.

Hoje ainda é possível comprar algumas edições originais do livro de Adam em leilões, algumas edições posteriores em sebos norte-americanos, como essa, ou mesmo reproduções recentes da faixa separada.

Imagem 082
Adams’ Synchronological Chart of Universal History. David Rumsay Map Collection.

Recentemente uma edição digital do mapa foi lançada pelo site da coleção David Rumsay [5], de onde vem as figuras que ilustram o post. A edição digital é muito boa, com uma reprodução em alta definição, na qual é possível examinar o mapa com muito detalhe.

Por  outro lado, não se tem uma boa visão geral do mapa, pois naturalmente a faixa inteira, com seus sete metros de comprimento, só cabe na tela de um computador em dimensões muito reduzidas.

Fica, assim, para os olhos da nossa mente visualizar a expressão no rosto de uma criança nos idos de 1890 ao abrir um livro desses e ir desdobrando aos poucos aquele papel infinito cheio de figuras de armas e navios, e a vertigem de uma outra criança ao rodar as paredes de uma sala de escola vendo sucederem-se tantos nomes de reis.

Referências e sugestões de leitura:

[1] Adams, Sebastian C. Adams’ Synchronological Chart of Universal History. Through the Eye to the Mind. A Chroesnological chart of Ancient, Modern and Biblical History, Synchronized by Sebastian C. Adams. Third Edition and Twelfth-Thousand carefully and critically revised and brought down to 1878. Colby & Co. Publishers, 39 Union Square, New York. The Strowbridge Lithographing Company, Cincinnati, O. Entered According to Act of Congress in the Year A.D. 1871, by S.C. Admas, in the Office of the Librarian of Congress at Washington, D.C.

[2] Rosenberg, Daniel & Grafton, Anthony. Cartographies of Time: A History of the Timeline. Princeton Architectural Press, 2013.

[3] Popova, Maria. Cartographies of Time – A chronology of one of our most inescapable metaphors, or what Macbeth has to do with Galileo. 02/07/2012. http://www.brainpickings.org/index.php/2012/02/07/cartographies-of-time/

[4] Friendly, Michael; Sigal, Matthew; Harnanansingh, Derek. The Milestones Project: A Database for the History of Data Visualization. http://datavis.ca/papers/MilestonesProject.pdf

[5] (Composite of) Adams’ Synchronological Chart of Universal History. Edição Digital, David Rumsay Collection. http://www.davidrumsey.com/luna/servlet/detail/RUMSEY~8~1~226099~5505934:-Composite-of–Adams–Synchronologi

[6] Nàdia Revenga, Nàdia. Mapas y líneas del tiempo: propuestas de visualización de la información contenida en la base de datos CATCOM. http://www.uqtr.ca/TEATRO/teapal/TeaPalNum07Rep/05RevengaNadia.pdf

 

Marco Civil da Internet e Neutralidade da Rede – para entender o debate

"Internet Livre". Fonte: http://www.facebook.com/MarcoCivilJa/photos
“Internet Livre”. Fonte: http://www.facebook.com/MarcoCivilJa/photos

Os debates em torno do “Marco Civil da Internet” tem sido intensos no Brasil desde que começaram as negociações em torno da votação do Projeto de Lei 2126, de 2011  (cf. [13]) – e, tanto nas mídias tradicionais como nos blogs e redes sociais, há muito que ler sobre o assunto. Como é provável que a votação do Projeto no Congresso aconteça nesta semana (cf. [9]), preparei aqui uma seleção de artigos, debates e entrevistas sobre o tema.

Mas “… o que o Marco Civil e a Neutralidade da Rede tem a com as Humanidades Digitais?“. [Leia mais em http://hdbr.hypotheses.org/4863]

Descobertas & Inovações

Fonte: See-ming  Lee, nov. 2013, Creative Commons “Installation by Theaster Gates (b. 1973): Red line with black soot and enthusiasm, 2013 (Decommissioned fire hose and wood)” /  Kavi Gupta / Art Basel Hong Kong 2013 / SML.20130523.6D.14240 (See-ming Lee) / CC BY 2.0

Fonte: See-ming Lee, nov. 2013, Creative Commons“Installation by Theaster Gates (b. 1973): Red line with black soot and enthusiasm, 2013 (Decommissioned fire hose and wood)” / Kavi Gupta / Art Basel Hong Kong 2013 / SML.20130523.6D.14240 (See-ming Lee) / CC BY 2.0

Apesar de distantes no tempo, estas duas notícias abordadas neste post parecem sinalizar que algumas mudanças no campo das Humanidades Digitais vem acontecendo. Um necessário distanciamento entre ambas demonstra que, em certa medida, chegam, até mesmo,  a se complementar.

Ao que tudo indica, neste primeiro artigo presente no site do Max-Planck-Gesellschft, as próximas notícias sobre Humanidades Digitais serão escritas com outras tintas e outras fontes. Este interessantíssimo artigo  postula uma nova descoberta nos sistemas digitais. Muitos de nós talvez pensem que toda a estruturação em meio digital ocorra pura e simplesmente a partir de uma combinação entre os números ‘0’ e ‘1’, mas de acordo com a pesquisa desenvolvida no instituto – Max-Planck-Instituts für Dynamik und Selbstorganisation em Göttingen – se trata de um novo modelo para o processamento de informação, mais conhecida como complex network computer. Segundo Marc Timmer, responsável pelas pesquisas, este novo modelo é capaz de processar informações através de um sistema oscilatório.

Em termos práticos isso significa que diversos novos e mais eficientes tipos de programação podem ser estruturados conforme o próprio artigo faz referência, o que resulta por conferir uma nova perspectiva de interação em diversas plataformas para os mais variados usos.

Uma das implicações diretas dessa descoberta recai diretamente na maneira como essas interações ocorrem, o que resultará por forçosamente interferir nas próprias interações entre si, tanto no plano da programação em si como no plano da utilização pelos usuários.

Que existe muita inovação e descobertas inimagináveis em Humanidades Digitais realmente não é novidade. O que realmente impressiona é que essas novas técnicas poderão ou não suplantar as atualmente existentes ou podem passar a coexistir, como ocorreu na época do surgimento da imprensa e por conseguinte do texto impresso que passou a se fazer presente nos mesmos espaços antes apenas ocupados pelo manuscrito.

Outro aspecto que chama bastante a atenção é esse movimento oscilante da interação evidenciado por esse novo modelo. É instigante pensar que mesmo em um sistema pequeno, como diz o próprio artigo, as interações e suas resultantes compõem uma infinidade de outras mais.

Toda a forma de interação se constitui como um tema muito caro ao campo das Humanidades Digitais. Um dos subcampos, no âmbito de Humanidades, em que se consegue melhor identificar todas as nuances dos mais diversos tipos de interações é justamente o campo de língua/linguagem, tanto falada como escrita, uma vez que diferentes mídias abundam na internet na atualidade baseando-se em arquivos escritos ou audíveis.

Fonte: Penn Provenance Project, ago.2012 http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/
Fonte: Penn Provenance Project, ago.2012 http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

Seguindo essa linha de raciocínio as consequências que esta nova conjuntura  trará e que essas interações poderão ter no campo de Humanidades em geral é igualmente imenso.

Passando agora à segunda notícia: sempre houve a necessidade de se catalogar dados, bem como de sistematizá-los. A tecnologia digital soube bem fazer isso, mas a verdade é que a profusão de dados na internet, muitas vezes, não permite relacionar os resultados de suas buscas. Isso, sob a perspectiva da pesquisa se constitui como um grande problema. Evidentemente, existem alguns sistemas em vários países, como diz o segundo artigo: “BISG – Book Industry Study Group, dos Estados Unidos, formulou o BISAC, os ingleses criaram o BIC, os franceses o CLIL e os alemães, o WGS”. Talvez um deles forneça novas dinâmicas na classificação dos objetos digitais e/ou produtos culturais. É importante lembrar que muitos sites que disponibilizam material digitalizado –  como bibliotecas, instituições, revistas digitais – trabalham diretamente com os metadados.

A novidade, no caso do segundo artigo, seria um projeto denominado THEMA, o qual seria capaz, de alguma forma, de reunir diferentes informações de uma infinidade de bancos de dados diferentes que pudessem compor um único banco de dados geral. Esse se mostra ser um decisivo e relevante passo para os pesquisadores, uma vez que levarmos em conta a quantidade de fontes e repositórios que existem na atualidade. Novamente interações inimagináveis parecem ser a espinha dorsal das Humanidades Digitais.

O amálgama entre interação (representado por esse sistema oscilatório) e língua (representada pelos sistemas que estruturam os metadados) parece ser indissociável neste novo cenário sinalizado por essas duas notícias. Esse movimento oscilatório remete novamente à primeira descoberta mencionada neste post, ou seja, a partir de uma única interação entre dois elementos, por assim dizer, uma infinidade de outras interações são engendradas.

Não se pode perder de vista que muitas vezes são as interações que definem seus participantes, muito mais do que suas características tomadas estatica- e individualmente.

Fonte: Jjb@nalog, mar.2011, Flickr http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/
Fonte: Jjb@nalog, mar.2011, Flickr http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Veja mais em:

1º. artigo: http://www.mpg.de/5975149/complex_network_computer

2º. artigo: http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=75793

http://www.editeur.org/151/Thema

Digitalização como tradução material: A tipografia líquida de ‘The Art of Google Books’

Tabelas que se contorcem, linhas de texto que ondulam como um rio ao longo da página, tipos que crescem e diminuem num balé entontecedor: essa é a beleza das imagens destacadas em The Art of Google Books. Ali, a artista plástica Krissy Wilson extrai, das “falhas técnicas” da digitalização do gigante Google, uma poesia: a poesia da quebra da opacidade pretendida pela representação digital.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com
Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

É como se, ao longo de uma leitura que já se fazia confortável, subitamente, pelo encontro de uma dessas “falhas”, fossemos acordados do nosso sonho de estar lendo um livro renascentista sobre a previsão do tempo, e percebessemos por um breve instante, meio chocados, que estávamos apenas diante de uma representação do livro. Esse atordoamento provocado pela falha faz um corte no fluxo estável programado para a nossa fruição do objeto representado, e nos faz ver, através do corte, as entranhas do processo que tentou trazer aquele livro para a sala da nossa casa, percorrendo quilômetros de terra (e mar) e cinco séculos de tempo.

http://books.google.com.br/books?id=PXAaAQAAMAAJ
Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Screenshot de http://books.google.com.br/books?id=PXAaAQAAMAAJ

As imagens destacadas pela artista entre as muitas falhas que podemos observar em páginas de livros escaneados nos remetem à delicada relação entre os objetos “digitalizados” e seus originais, sucitando a pergunta: o que estamos fazendo, afinal, quando digitalizamos livros impressos? A digitalização, mais que uma simples cópia, é uma representação, um processo de reprodução que envolve uma profunda transformação no objeto representado.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com/
Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

O meio digital tem propriedades fundamentalmente distintas do meio a que pertenciam os objetos que se pretende representar, e na ponte entre um e outro meio reside a arte da representação pela digitalização. No campo da crítica textual, ainda não se formou um vocabulário técnico respeitável para lidarmos com essa nova forma de “cópia”. Eu mesma já propus o termo “Tradução Material” [i], sugerindo que a relação entre o objeto digital e seu original é semelhante à relação entre um texto traduzido e seu original. São e não são “o mesmo texto”: e a ilusão da similitude, quando obtida, é simplesmente a manifestação mais clara do bom resultado da representação – assim como, em um texto bem traduzido de uma língua para outra, o efeito da língua original se oblitera, foge à nossa percepção, pela boa arte do tradutor. Assim, nesses dois processos de tradução está em jogo a arte de produzir a ilusão da não-representação. Nesse sentido, quanto mais um livro digitalizado apresentar-se “igual” ao objeto impresso, maior terá sido o esforço da representação – mais perto se terá chegado da opacidade pretendida pela técnica.

Nesse sentido é que o olhar de Wilson em The Art of Google Books é singular. A artista enxergou, nas páginas distorcidas dos livros digitalizados, a brecha da “tradução manca”: aquele ponto de “erro” que nos revela o processo que quer operar na opacidade da perfeição técnica – a fábrica de representações se revelando transparente, como se revelaria um feixe de luz que se quisesse cobrir com um tecido fino demais.

http://theartofgooglebooks.tumblr.com
Página de “A Prognostication of Right Good Effect, Fructfully Augmented Contayninge Playne, Briefe, Pleasant, Chosen Rules”, 1555. Em The Art of Google Books, http://theartofgooglebooks.tumblr.com/ – 30/09/2013

Podemos ainda, é claro, ver a coleção de imagens reunida pela artista como um alerta sobre a baixa qualidade dos procedimentos adotados pela gigante corporativa Google em seu projeto de digitalização massificada e global (a própria artista reconhece que sua iniciativa pode ser abordada neste viés, em recente entrevista à coluna Art Beat).

Outros observadores da “arte das falhas” também incluem esse viés crítico. Destacaríamos, aqui, o fantástico “Google Hands“, de Benjamin Shaykin – livro inteiramente dedicado às imagens surreais e perturbadoras de mãos sobre páginas de livros digitalizados coletadas pelo artista.

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/12/the-art-of-google-book-scan.html
“Special Collection”, 2009. Benjamin Shaykin. Photo by the Library of the Printed Web. Disponível em http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/12/the-art-of-google-book-scan.html

As imagens do livro de Shaykin parecem levar a um corte ainda mais violento que o das tabelas dançantes – pois, aqui, já não se trata simplesmente de uma distorção revelando o efeito da tradução material, mas sim da interferência brutal de um objeto externo ao livro, mostrando-nos, muito cruamente, o caráter de “fábrica de imagens” por trás do Google Books.

Segundo  esta ótima matéria na revista The New Yorker, já se pode falar em uma subcultura de colecionadores de “Google Hands”, artistas e observadores obcecados, como Shaykin, na reunião dessas imagens. As “Google Hands“, entretanto,  são apenas o lado mais visível dos efeitos da digitalização em massa sobre a qualidade do material digitalizado hoje disponível na rede mundial de computadores.

Temos, hoje, um volume inacreditável de livros à disposição para leitura, transmutados de seus suportes originais para dentro das telas dos nossos computadores pessoais. Os lados positivos desse processo nem precisam ser mencionados; mas, como saldo negativo, temos os problemas de qualidade que surgiram com o aumento no ritmo das digitalizações. A qualidade das imagens é apenas um deles (nem começaremos, aqui, a mencionar o problema da qualidade da catalogação dos livros).

The Art of Google Books, entretanto, consegue olhar esse universo com arte e delicadeza – é um álbum que vale a visita.

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[i] PAIXÃO DE SOUSA, M. C. Humanidades Digitais: O digital e as novas formas de construção do conhecimento. Comunicação ao Seminário Internacional Sistemas de Informação e Acervos Digitais de Cultura. São Paulo, 12 de março de 2013. Gravado em vídeo – Canal da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, 
http://youtu.be/m0s-iAfZPDE

Análise e visualização de redes: o Gephi

Modelo de visualização por algoritmo  (mais modelos em https://gephi.org/features)
Modelo de visualização em Gelphi por algoritmos múltiplos (mais em https://gephi.org/features)

O desenvolvimento de novas formas de visualização de informações tem sido uma das áreas mais ativas nas humanidades digitais. Já comentamos, aqui no blog, as técnicas de representação textual em nuvens de palavras. Mas entre os projetos voltados para a manipulação de dados históricos, espaciais e textuais, destacam-se os que fazem uso de ferramentas baseadas em grafos para a visualização de redes.

A ferramenta para manipulação de grafos mais utilizada tem sido o Gephi, um software livre colaborativo mantido por um consórcio sediado na França, com  inúmeras aplicações em áreas como as ciências biológicas ou a economia – aqui, comentamos sua utilização em projetos ligados à história e à análise textual.

Um dos primeiros projetos a fazer uso do Gephi para dados históricos é o mapeamento da República das Letras – Maping the Republic of Letters, sediado na Universidade de Stanford.

Cartografia de “Mapping the Republic of Letters” (visualização de conexões)

O projeto, que se dedica ao estudo da formação da rede de correspondências entre letrados dos séculos XVII e XVIII, criou o banco de dados Electronic Enlightenment, composto por milhares de cartas (de fato, 55.000 cartas, envolvendo 6.400 correspondentes); em 2009, em colaboração com cientistas da computação, foi lançada uma plataforma para a visualização da rede formada pela troca dessa correspondência, usando Gephi. Como destacam D. Chang e colegas no artigo Visualizing the Republic of Letters, a manipulação dos dados para sua representação visual fundada em grafos envolve questões metodológicas e epistemológicas importantes – dentre as quais se destacaria a pergunta sobre seus impactos sobre a perspectiva interpretativa dos próprios cientistas humanos. De que modo esses acadêmicos treinados e experientes na leitura vertical e aprofundada de documentos isolados darão sentido aos padrões formados pela junção, em rede, de grandes conjuntos de dados? –  ou, nas palavras dos autores: “How can humanities scholars trained in close reading of individual documents make sense of patterns in large sets of data?”

Uma pergunta que pode ser tomada como o avesso dessa é a que guia algumas das pesquisas realizadas pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) dedicadas a compreender os sentidos que se formam pela relação remissiva entre os pequenos textos que circulam hoje nas chamadas redes sociais.

TodaRede
Cartografia do Labic – “Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças”

Também através da visualização em Gephi, algumas das “cartografias” de redes sociais realizadas no laboratório têm mostrado como as redes se formam em torno de alguns “nós” principais, que propõem, disseminam e moldam a circulação dos sentidos – em especial, no caso dos textos publicados no Twitter em torno de assuntos e figuras políticas (veja-se, por exemplo, Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças). Os estudos sobre as redes sociais realizados neste laboratório, ativo desde 2008 na Universidade Federal do Espírito Santo, são exemplo de uma linha cada vez mais intensa de estudos ao redor do mundo sobre a circulação dos sentidos nas redes sociais (em especial, no campo da política), muitos deles lançando mão de ferramentas para visualização de dados em grafos (veja-se uma lista extensa na própria wiki do Gephi).

Na área dos estudos textuais de um modo mais geral, as técnicas de visualização em grafos têm sido aplicadas sobretudo em estudos voltados para grandes volumes de textos – para um exemplo muito interessante, veja-se o artigo Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis, de Dmitry Paranyushkin.

Grafo em "Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis", de Dmitry Paranyushkin
Grafo de uma rede de textos em “Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis”, de Dmitry Paranyushkin

Novamente, surge a questão da calibragem do olhar: o passo entre a perspectiva (digamos) mais fina pela qual filólogos, linguistas e críticos literários acostumaram-se a ler o texto, e a perspectiva (tentemos de novo) amplificada pela qual podemos, hoje, analisar grandes conjuntos de textos (de fato: pela qual podemos visualizar relações entre textos em grandes conjuntos) – é um passo que determinará uma nova leitura? Tratamos nisso outras vezes neste blog, neste post, e especialmente neste outro; há também uma discussão muito interessante sobre o assunto no blog The Dragonfly’s Gaze: Computational approaches to literary text analysis.

Para muitos, o uso de novas técnicas para manipular e apresentar grandes volumes de dados levam a novas possibilidades de análise – pois construir uma representação, naturalmente, é propor uma interpretação.  Assim, os projetos dessa área constituem um exemplo marcante da complexidade envolvida na relação entre as tecnologias digitais e as humanidades: as tecnologias computacionais são, ao mesmo tempo, “ferramentas úteis” na construção do conhecimento e determinantes da construção do conhecimento.

Links de interesse

Artigos

BASTIAN, M (2009), Gephi : An Open Source Software for Exploring and Manipulating NetworksAAAI Publications, Third International AAAI Conference on Weblogs and Social Media, retrieved 2011-11-22

CHANG, Daniel et al. (2009) Visualizing the Republic of Letters. http://www.stanford.edu/group/toolingup/rplviz/papers/Vis_RofL_2009

W. G. Thomas, III. Computing and the historical imagination. In Companion to Digital Humanities, eds. S. Schreibman, R. Siemens,
and J. Unsworth, Wiley-Blackwell, Malden, MA. 2008.

SINCLAIR, Stéfan (et al). Information Visualization for Humanities Scholars, In Literary Studies in the Digital Age, NY: Modern Language Association.

Páginas e tutoriais

As dimensões da escrita

Followtheseinstructions, Flickr, 19 de agosto de 2012 Bélgica
Followtheseinstructions, Flickr, 19 de agosto de 2012 Bélgica

Desde o início dos tempos a escrita e suas diversas formas representavam o ponto nevrálgico da disseminação do conhecimento. É interessante notar que ainda hoje continua a desempenhar papel central em diversos âmbitos.

Nestes novos tempos digitais, nem tão novos assim, a escrita continua a ocupar o centro. Muitos dirão que não, que mudou demais para que se faça tal afirmação. No entanto mesmo que transfigurada pelo “internetês” é interessante como se faz necessária para expressar e comunicar conteúdos e percepções. Curioso também é o uso de caracteres para expressar emoções. Os tão conhecidos emoticons parecem não dar conta de toda a complexidade e sofisticação que modelam a linguagem no contato diário e imersivo que a Internet provém com sua tão costumeira profusão de conteúdo.

Tão sedutor quanto preocupante é o efeito causado por tal profusão de conteúdo. A questão-chave que a escrita literalmente carrega consigo é aquela relativa aos campos de busca nos acervos digitalizados. É necessário lembrar que muitas vezes o conteúdo digitalizado é composto por letras que não possuem caracteres correspondentes modernos em línguas atuais. O resultado disso é a dificuldade em se encontrar determinados textos. É sempre útil lembrar que, na maioria dos casos, em diferentes épocas, os envolvidos na elaboração e na composição dos caracteres, analógicos ou digitais, estavam diretamente ligados ao design, não priorizando aspectos fonéticos, fonológicos e filológicos.

Considerando toda essa problemática, se faz mister estabelecer uma curadoria de conteúdo entre os itens de acervos digitalizados, com o objetivo de dirimir todas as eventuais dificuldades que surgirão ao mesmo tempo em que toma lugar este novo paradigma.

Tal curadoria iria perpassar diversos aspectos, dentre eles a noção de clássico, seria aquele mais afetado, pois esse movimento retomaria alguns já existentes e evidenciaria outros menos prestigiados até o momento. A trajetória editorial de muitos clássicos, em suas respectivas épocas, se evidenciaria, o que permitiria descobrir e identificar os diferentes momentos pelos quais esses clássicos se consolidaram ou não. Isso significa que uma outra perspectiva para a análise se descortina a partir da curadoria de conteúdos no campo das Humanidades Digitais.

Evidentemente essa perspectiva não se limita apenas em si mesma. Existe ainda um outro aspecto, aquele relacionado às dimensões da escrita. Técnica que se acomoda a todas as transformações, vicissitudes e (re)evoluções pelas quais passam os suportes. Sempre é importante lembrar que corriqueiras mudanças se transformam em avanços tecnológicos com o passar do tempo, o que resulta por reescrever a história de todo o material cultural produzido. É um movimento interessante: (i) existe o registro físico, (ii) a circulação concreta de ideias, (iii) uma adaptação da língua e do suporte primeiramente adotados e (iv) circulação imprevisível, inimaginável e sem precedentes.

Um exemplo ilustra bem essa questão da dimensão da escrita: iluminuras quando surgiram se prestavam a um círculo extremamente restrito de circulação, não é exagero afirmar que existia uma espécie de aura mítica, sagrada, transcendental inalcançável à nossa compreensão moderna. O fato da circulação de textos e livros ter sofrido tantas mudanças, quanto o próprio suporte em si, moldou, em certa medida, a formação de uma memória coletiva. Essa transmissão ficou a cargo da escrita. Pois esse mesmo objeto, antes sagrado e restrito, agora é sujeito e símbolo de uma coletividade amorfa, a Internet; isso sem deixar de considerar todas as mudanças e transformações observadas no próprio suporte.

Com o devido recuo no tempo para análise, será, no mínimo, inquietante investigar e comparar a transformação da escrita desde o seu surgimento e explorar toda a sua potencialidade, afinal talvez, partindo de todas essas considerações, possamos concluir que a escrita se transforma, enquanto técnica, na mesma medida em que se transforma a nossa essência.

Steve Juvertson, Flickr, 20 de setembro de 2012
Steve Juvertson, Flickr, 20 de setembro de 2012

O dossiê biográfico nas Viagens Filosóficas

Dentro do grupo “Viagens, arte e ciência no Mundo Português” – no contexto dos nossos projetos na linha de História da Ciência –, a leitura da obra de Dosse surgiu como norteadora para a criação de um dicionário biobibliográfico, dentro do site da Biblioteca Brasiliana USP, com a finalidade de compilar os estudos realizados no mestrado e doutoramento da professora Ermelinda Moutinho Pataca.

Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
“Que arvore temos [na Europa], que possa por si só formar um bosque, como a bananeira, Rainha de todas, que abrange com seu império todas as três partes do mundo, África, e Ásia, e as Províncias subtropicais da América”. (Fazendeiro do Brasil, 1798).
Imagem: Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
O projeto pretende que a inserção do dicionário não apenas transmita informações de modo acumulativo, mas contribua para a comunicação entre diferentes conhecimentos que possam se encontrar nestas, e através destas, memórias.

A obra biográfica configura-se como gênero híbrido, travando uma busca pela imortalidade de seus personagens através do modo escrito. Esta “imortalidade” é gerada, então, não apenas pelos fatos concretos, que o biógrafo encontra documentado, mas por fatos que se ligam à memória – tanto a memória do autor sobre seus personagens, quanto por uma possível memória social – e, além deste, outro importante ingrediente é a empatia (ou falta de) entre a figura do narrador e do sujeito narrado.

Essa relação entre biógrafo e biografado transmite a importância da figura narrada: o fazer e refazer biografias de uma mesma personagem revela essa necessidade de ressaltar a importância de sua vida. A importância não se dá apenas pela incompletude da trama (já que cada biografia escolhe e anula certas informações), mas varia de acordo com os interesses contextuais da sociedade na qual o livro é escrito.

Desta maneira, a obra de François Dosse, “O desafio Biográfico”, compila a história da biografia, desde seu uso para ressaltar figuras exemplares – como heróis e santos – passando por um hiato biográfico, até o ressurgimento do gênero, e sua ascendência nas últimas décadas, revelando a importância da “memória de vida registrada”, seja como contribuição para a compreensão de uma vida isoladamente, ou então, enquanto meio para entender fatores que incentivaram movimentações históricas ao longo do tempo.

Neste contexto, por meio das biografias dos viajantes, tentaremos contribuir para uma visão ampliada dos quadros e imagens que a História Oficial do Brasil nos oferece. O acréscimo e disponibilização de tais informações relacionar-se-ão com os parâmetros de criação de nossa própria identidade, enquanto brasileiros. Este percurso de estudo do individual para enxergar sua contextualização social e, assim, o retorno ao individual para avaliar suas singularidades, nos ajudará a voltar ao nosso próprio interior, ou seja, nossa identidade cultural.

A partir da biografia dos viajantes Alexandre Rodrigues Ferreira e do Frei José Mariano da Conceição Veloso, iremos traçar as viagens filosóficas e as relações estabelecidas entre estudiosos, naturalistas, desenhistas, engenheiros, militares e governantes que contribuíram ricamente para os estudos científicos brasileiros entre os séculos XVIII e XIX.

Criaremos, assim, redes de relações e diálogos que eram travados entre os naturalistas, de modo a conhecer a formação e as metodologias de pesquisa criadas na época, no que se refere às Viagens Filosóficas. Para expressar tais relações, a escolha pelas biografias modais nos ajudará a compor nosso dicionário, pois seu estilo leva à compreensão do indivíduo ilustrado pelo coletivo. No caso das Viagens Filosóficas luso-brasileiras, ressalta-se o grupo social por concepções científicas, estéticas, políticas e sociais dos viajantes, que se encontram presentes em textos, cartas, guias para peregrinos, publicações de diário de viagens, mapas, iconografias, entre outros, e a relação obtida entre esses dados com a História das Ciências no Brasil.

A rede de relações será formulada, no dicionário, a partir da ideia de biografemas, na qual o momento instantâneo se registrará não pela linearidade dos fatos, mas por recortes temporais e espaciais a ser definidos na leitura dos materiais analisados, ampliando as fontes de informações para os estudos sobre a História do Brasil.

Na construção do dicionário biobibliográfico dentro do site da Brasiliana-USP, criamos quatro parâmetros que norteiam a elaboração dos textos no Projeto dos Viajantes: i) criatividade; ii) conteúdo; iii) inovação; e iv) comunicação. Os quatro itens são intersectivos, colaborando para a eficácia de nosso projeto em âmbito geral.

A criatividade é o parâmetro número 1, pois, através dela, elaboraremos meios de repassar os conteúdos (item 2) com a qualidade exigida e a dinamicidade que nos é oferecida, pensando no suporte virtual e dinâmico que abrigará o dicionário. Neste ínterim, propomos a criação de um mapeamento dessas viagens, nas quais as relações serão georeferenciadas através das perspectivas espaço-temporais.

A dinamicidade do meio virtual atravessa o item 3, de inovação, através de conceitos não abordados por Dosse, porém, com o intuito de encontrar novos meios para transmissão do conteúdo do dicionário não apenas aos grupos de pesquisadores especialistas no assunto – acadêmicos ou não – mas também visando um público de pesquisadores “amadores”, que busquem incrementar seu rol de conhecimentos na área.

Para isto, o quesito 4, de comunicação, se torna nosso foco principal, no qual elaboraremos a junção dos três itens anteriores, de modo que funcionem ativamente e não apenas como um banco de dados depositado na rede. A realização destes quatro parâmetros é essencial para a disseminação do que compreendemos como nossa colaboração para as Humanidades Digitais: pelo uso de ferramentas digitais modernas, como os metadados e a criação de marcações nos textos a ser mapeados, repensaremos a construção de uma identidade social na constituição de nosso país. Assim, a disponibilização destes conteúdos requer a comunicação com o público-alvo (e o aumento deste), justamente para que esta seja uma ferramenta somatória quando pensarmos em História e Formação do Brasil.

A criação do dicionário biobibliográfico não deve ser considerada um fim, entretanto, para a compreensão da História. O objetivo principal é a revisitação e a releitura dos dados construídos ao longo do tempo, os quais serão analisados e interpretados de modo heterogêneo e contínuo, em diferentes sociedades. A ideia de uma verdade plena não se concebe nesse pensamento, portanto, como define Dosse (2009:408): “A verdade sempre foi a ambição da escrita do historiador, ainda que seu modo de objetividade permaneça para sempre incompleto, enunciando-se numa linguagem sempre equívoca, tensionada entre o passado e o presente, a partir de uma subjetividade implícita num lugar e numa prática”.

Deste modo, o enigma da biografia sobrevive à ideia de uma biografia plena, ou seja, sempre há possibilidades para novas interpretações e revisitações das mesmas. As análises do grupo dos Viajantes ampliarão o conjunto de dados para pesquisas, através dos links criados na sistematização das referências compiladas pela professora Ermelinda Pataca, facilitando o acesso às informações mapeadas.


Texto por: Cristiane Borges de Oliveira (bolsista Aprender com Cultura e Extensão, Projeto Implementação de bancos de dados para dicionário bio-bibliográfico de viajantes portugueses na biblioteca Brasiliana USP  – graduada em Letras pela FFLCH-USP) e Fernanda Félix da Conceição (bolsista Ensinar com Pesquisa – graduanda em Pedagogia pela FE-USP,  Projeto “Projetos e práticas educativas de Frei José Mariano da Conceição Veloso”)

Referência: DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma vida. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: EDUSP, 2009.

Palavras, palavras, palavras…

Uma vez, uma criança muito curiosa que espiava por cima do meu ombro enquanto eu trabalhava na minha tese de doutorado me disse:

Mamãe, o seu trabalho é praticamente palavras! “.Cloud Palavras

Para todos nós que vivemos praticamente de palavras, o mundo digital abriu possibilidades imensas de investigação. As tecnologias de automatização da linguagem, surgidas no pós-guerra e fortemente centradas na pesquisa sobre tradução automática, deram saltos inimaginávies nos últimos anos. Uma das razões para isso, suspeito, é que o mundo se transformou num imenso corpus.

A interligação de computadores em rede – a internet, e mais fundamentalmente, a www – deu à luz a uma nova forma de textualidade, uma textualidade espalhada sobre o mundo, que recobre tudo com sua manta de palavras a serem apreciadas e investigadas.

Nuvem deste Blog, gerada no Tagul
Nuvem deste Blog, gerada no Tagul

Na última década, surge uma tecnologia especialmente interessante: as nuvens de palavras, ou tag clouds. As nuvens são uma forma de representação da importância de diferentes termos em um corpus – um texto específico, um conjunto de textos, ou mesmo um conjunto de conjuntos de texto (a internet, e sua manta de palavras espalhadas). A tecnologia por trás das nuvens é muito delicada, e envolve fórmulas matemáticas para calcular o peso relativo de cada termo com base em sua frequência e daí derivar sua importância na representação, por meio de tamanho de fonte, cor, etc.

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Nuvem deste blog, gerada no TagCrowd

As nuvens de palavras possibilitam inúmeras aplicações. A mais comum é a representação da importância de um conjunto de metadados em sites e blogs (como a que temos no nosso próprio blog). Entretanto, há também aplicações importantes em pesquisas nas áreas de linguística e ciência da informação.

Um exemplo fascinante é a pesquisa realizada por um grupo de físicos brasileiros, comentada no intrigante artigo “A vida das Palavras”, na Revista da Fapesp de junho de 2011. Esse trabalho, que pretende investigar como o uso das palavras numa comunidade evolui com o tempo, usa as nuvens para construir representações de seus resultados.

Nuvem de “A vida das palavras”, Revista Fapesp

Outro campo no qual a técnica das nuvens vem sendo utilizada é na educação, como sugerem por exemplo o blog 21st Century Educational Technology and Learning, e o blog da plataforma de aplicativos para a sala de aula Knewton, com exemplos muito interessantes.

Nuvem dos presidentes americanos - exemplo do Knewton.com
Nuvem dos presidentes americanos – exemplo do Knewton.com

O uso das nuvens na educação é facilitado pelo surgimento de inúmeros aplicativos gratuitos que oferecem a possibilidade de criação de nuvens de palavras a partir de qualquer texto, de modo fácil, intuitivo (e bastante divertido), como o Tagul, o TagCrowd, o Word it out, o Tag Cloud Generator, ou todos esses outros sugeridos no blog 21st Century Educational Technology and Learning.

Assim, as nuvens de palavras parecem encerrar possibilidades ainda não imaginadas, e talvez nem mesmo vislumbradas pelos criadores da técnica.

Quem sabe essas novas possibilidades podem surgir da imaginação das crianças de hoje –  que, talvez, passem a gostar de fazer trabalhos que são, praticamente, palavras.

O que é um MOOC?

Os “MOOCs”  – cursos online abertos e dirigidos a um público amplo (na sigla inglesa para Massive Online Open Course) – têm se multiplicado em  ritmo acelerado pela rede nos últimos anos. O ano de 2012, por sinal, foi apelidado de “o ano do MOOC” por diversos blogs e redes sociais, inspirando também algumas reportagens na mídia impressa.

A rápida disseminação dessa forma de acesso ao conhecimento nos coloca diversas questões interessantes: os MOOCs são mais uma ‘onda’ da internet, ou são exemplos de novas e revolucionárias formas de relação com o conhecimento? Para podermos debater isso, vamos começar fazendo um perfil geral desse estilo de aprendizagem “à distância”.

Portal de MOOCs, Berkeley http://webcast.berkeley.edu/
Portal de MOOCs, Berkeley

Em primeiro lugar importa notar uma certa diversidade dentro daquilo a que se denomina um “MOOC”. De fato, existem MOOCs ligados a programas universitários (como os de Harvard, de Yale, da UCLA/Berkeley e do pinoneiro MIT) e MOOCs independentes (como aqueles encontrados no Udacity e no Blackboard). Ainda, entre os MOOCs das grandes universidades, existem aqueles inteiramente abertos à participação do público, e aqueles dirigidos aos alunos da universidade (ou, ao menos, a alunos inscritos e cadastrados), que resultam em certificados e “créditos”, como qualquer disciplina “presencial”.

edX
Plataforma edX

Além disso, é interessante notar que alguns cursos são realizados em plataformas de Acesso Aberto sem fins lucrativos (emblematicamente, a edX, que abriga os cursos do MIT, de Harvard e de Berkeley, por exemplo); outros são encontrados em plataformas fechadas que visam lucro (como a Coursera, que inclui os cursos de Princeton e Stanford, e a Blackboard). Entretanto, mesmo nas plataformas privadas, os cursos são gratuitos para quem os assiste – o lucro vem da compra de softwares ou do aluguel da plataforma, da parte de empresas que desejem montar cursos.

Na comunidade original dos idealizadores dos MOOCs, entretanto, a vocação da ideia é para o acesso aberto irrestrito e sem visar o lucro. É esse o ideário que segue sustentando as grandes plataformas abertas, como a edX – fundada por pesquisadores do MIT e de Harvard que tanto oferecem cursos como pesquisam as formas de ensino-aprendizado em rede. Esses pesquisadores lançaram o edX em 2012 justamente como reação política à crescente comercialização dos provedores de MOOCs.

Vídeo do curso "The hero in ancient greek civilization", Prof. Gregory Nagy, Harvard.
Vídeo do curso “The hero in ancient greek civilization”, Prof. Gregory Nagy, Harvard

Quanto ao formato dos cursos, os MOOCs podem incluir basicamente três tipos de atividades (todas em rede, é claro): apresentações gravadas em vídeo, fóruns de discussão e atividades de avaliação. As tecnologias envolvidas nas atividades de avaliação renderiam, por si sós, um novo post (em alguns casos, incluem a realização de provas em casa, com monitoramento por câmeras). Entretanto, tipicamente um MOOC é composto pelo material em vídeo e pela plataforma interativa, muitas vezes sem a atividade avaliativa  – é o caso da maioria dos cursos independentes, ou seja, não ligados a Universidades, e que não “certificam” os alunos.

Assim, fundamentalmente, o que distinguiria um MOOC de uma palestra gravada e disponível online – e mesmo, das plataformas dedicadas à divulgação de palestras online, como a famosa TED – é que um MOOC é desenhado para ser uma experiência interativa.

Vídeo do curso "Einstein for the masses", de Yale, disponível no YouTube
Vídeo do curso “Einstein for the masses”, Prof. Ramamurti Shankar, Yale, disponível no YouTube (com 111.085 acessos)

O interessante, para a nossa discussão, é que os MOOCs de conteúdo aberto, mesmo quando são originalmente produzidos por instituições de ensino tradicionais, acabam se desvinculando das suas “almas-mãe” originais. Essa perda de vínculo se pode medir, inclusive, pelo fato de que muitos cursos preparados nas plataformas “oficiais” acabam disponíveis em portais gerais, como o YouTube, onde podem ser acessados ainda mais amplamente  – e muitas vezes, de forma desconectada em relação aos demais conteúdos preparados por quem idealizou o curso.

Assim, seja nas plataformas abertas, seja simplesmente no YouTube, qualquer pessoa com acesso à internet (e à língua inglesa…) pode assistir, por exemplo, aos vários cursos online preparados por professores de universidades de elite dos EUA, como Harvard ou Yale, sem ter nenhum tipo de ligação com essa universidade. Esse internauta, natuaralmente, não terá um “certificado” por ter “cursado essa disciplina“… Mas, ao que parece (por exemplo, pelo alto número de acessos que alguns cursos têm no YouTube), grande parte das pessoas que assistem aos cursos online não tem nos diplomas seu maior objetivo.

É isso o que leva alguns a declararem que os MOOCs são mais que uma onda, uma moda da internet – representariam, de fato, uma tendência para o futuro da relação das pessoas com o conhecimento.

http://www.youtube.com/watch?v=eW3gMGqcZQc
“What is a MOOC?” – Dave Cormier

Essa é, por exemplo, a perspectiva do educador Dave Cormier, explicada neste vídeo:

“Um MOOC é um curso aberto, participativo, distribuído e aberto – não é simplesmente um curso online, é um evento em torno do qual pessoas que se interessam por determinado assunto se reúnem e refletem sobre esse assunto”.

Se abraçarmos essa perspectiva dos MOOCs como nova forma de busca pelo conhecimento (bastante disseminada nos debates na rede), teremos aspectos muito interessantes a considerar. A possibilidade de acesso às “aulas” de forma irrestrita e desvinculada de outros materiais didáticos,  por exemplo, significa que as escolhas pendem muito fortemente para o lado do “aluno” – a escolha dos assuntos, da ordem pela qual serão tratados, das “aulas” que precisam ser assistidas e das que não precisam. Assim, quase que podemos questionar a denominação “cursos”, já que essas experiências de aprendizado não dependem de um programa pré-estabelecido, ou seja, não configuram exatamente um “curso” (= caminho) programado por um professor.

Assim, vou precisar fechar o post com a pergunta que comecei: afinal – o que é um MOOC?


Lista de Links

Exemplos de Moocs em grandes universidades:

Plataformas:

Reportagens

Manuscritos do Timbuktu – a escrita enquanto técnica perene

Fonte: http://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html
Ahmad Baba ibn Ahmad ibn Umar ibn Muhammad
Aqit al-Tumbukti.
Miraj al-Suud ila nayl Majlub al-Sudan
(Ahmad Baba Answers a Moroccan’s
Questions about Slavery).
Mamma Haidara Commemorative Library, Timbuktu, Mali (6)

A aura que envolve os manuscritos, sejam eles de que época forem, parece nunca se desvanecer. E mesmo na Era da Digitalização tudo leva a crer que essa aura se mantém. Bem, não é para menos, pois através dos manuscritos é possível ter acesso a informações ou contextos inalcançáveis. O que mais chama a atenção é que parece haver uma espécie de movimento recente, empenhado em reafirmar que apesar de estarmos entrando em um período em que se utilizará cada vez menos a escrita manuscrita – eles, os manuscritos, estão ocupando reconhecido lugar de destaque – considerando que uma verdadeira leva em diferentes instituições e localidades tem sido sistematicamente digitalizada há algum tempo.

O que se mostra como uma interessante e inovadora oportunidade de se ter acesso a épocas passadas, recontadas conforme o momento em que foram “publicadas”. Como  como já dizia Wallerstein, “o passado muda porque resulta de nossa imaginação presente” e fica claro que os manuscritos têm o papel de reavivar a memória coletiva e fazer lembrar que o presente, sempre que necessário e conveniente, muda suas conclusões a respeito de tempos pretéritos.  Exemplos clássicos seriam a Espanha Islâmica e a existência de um passado cultural escrito na África, uma vez que se acreditava que tivesse sido estritamente oral. Já a Espanha Islâmica se configura como um verdadeiro tabu quando consideramos aspectos históricos determinantes entre Ocidente e Oriente, aspectos esses raramente tangenciados na atualidade: um passado intelectual árabe construído sobre os território ibérico e africano.

Fonte: http://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html
Sayyid Ahmad ibn Amar al-Raqadi al-Tumbukti al-Kunti.
Shifa’ al-Asqam al-Aridah fi al-Zahir wa-al-Batin min al-Ajsam
(Curing Diseases and Defects both Apparent and Hidden).
Mamma Haidara Commemorative Library, Timbuktu, Mali (16)

Uma matéria recente no site da revista IstoÉ Independente nos aponta essa problemática. Enfatiza também alguns truques necessários e aborda algumas etapas envolvidas para se preservar uma obra tão valiosa como essa.

Evidentemente o simples fato de esses manuscritos existirem corrobora uma verdade inconveniente: a construção do conhecimento no Ocidente simplesmente ignorou a existência de outras formas de saber. Tão concentrado estava o Ocidente em perpetuar a própria memória – a qual veio a se tornar uma espécie de patrimônio do Ocidente – como se esse mesmo Ocidente não tivesse se formado em raízes e bases do Oriente.

De maneira que, o contato com esses manuscritos e com toda essa nova realidade inerente que carregam consigo evidencia que o campo das Humanidades Digitais, profícuo em ocasiões como essa – preservação e armazenamento de documentos raros e antigos – mostra ser a alternativa por excelência para coadunar esse contexto que se corporifica e que é ingênuo chamar de novo: a digitalização de incunábulos e alfarrábios.

al-Qadi Muhammad ibn al-Imam Uthman al-Wakari al-Tumbukti,  Sharh 'ala Amthilat al-Fara'id  (Commentary on the work Examples of Law).  Mamma Haidara Commemorative Library, Timbuktu, Mali (3)
al-Qadi Muhammad ibn al-Imam
Uthman al-Wakari al-Tumbukti,
Sharh ‘ala Amthilat al-Fara’id
(Commentary on the work Examples of Law).
Mamma Haidara Commemorative Library, Timbuktu, Mali (3)

O campo das Humanindades Digitais, inútil dizer vastíssimo, tem e terá, cada vez mais, infinitos objetivos, entretanto, digitalizar manuscritos parece ser, pelo menos para os estudiosos da área, evidentemente, O objetivo. Pelo simples fato de que existe uma perspectiva pouco explorada na transmissão do conhecimento que é a perspectiva política, como essa notícia sobre os Manuscritos de Timbuktu demonstra tão bem, ou seja, não é mais possível negar ou ignorar que existe uma espécie de disseminação ideológica na transmissão do conhecimento.

Talvez seja um pouco cedo para considerar, no entanto, também não se pode ignorar o fato de que uma espécie de novo paradigma se define, ou seja, apesar da revolução tecnológica moldar e transformar a trajetória da escrita manuscrita, seus usos e sua relevância, os próprios manuscritos em si não perderam o poder que têm: o de imortalizar fatos e dados incorpóreos, e portanto atualizados e adulterados conforme a época que os revela, em suporte passível de ser recuperado, da maneira como foram originalmente concebidos.


Créditos das imagens – Exposição virtual da Biblioteca de Mali:

http://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html

Veja mais em:

http://www.istoe.com.br/reportagens/281513_O+INCRIVEL+RESGATE+DAS+BIBLIOTECAS+DO+MALI?pathImagens&path&actualArea=internalPage

O enredo que tece a história

Philip Roth
Philip Roth Unfinished. Desenho de France Belleville. Fonte: Wagonized, http://wagonized.typepad.com/wagonized/2006/09/everyman.html

A voz autoral, sempre intrigante, sofre uma série de alterações de acordo com as edições e reimpressões que uma determinada obra recebe. Atualmente, com uma intensificada circulação de informações, é possível ter acesso a fatos acerca de autores, tramas e, até mesmo, a informações sobre o autor.

Esse texto complementa as discussões ocorridas em muitas das sessões  do GP HD sobre o papel do autor. Esse texto aborda especificamente uma informação sobre o autor em questão, Philip Roth, veiculada em um site de amplo e vasto acesso. O que chama mais a atenção sobre esse fato, aparentemente corriqueiro, foi a forma como uma informação sobre esse autor foi selecionada para fazer parte de um conjunto mais abrangente, sobre o próprio autor em questão, que contaria com informações mais detalhadas a respeito dele e de sua obra.

O que realmente chama a atenção na notícia contida nesse link é que o autor não é o “proprietário” das informações a respeito de si próprio. Confuso? Improvável? Inverossímil? Sim.

O que eventos, como esse, são capazes de evocar são considerações relevantes sobre a propriedade de informação: até que ponto aquele a que se referem as informações é capaz de ter autoridade e propriedade sobre sua divulgação e seu uso?

Outra questão, também igualemente relevante, se coloca: que desdobramentos essas intervenções à revelia daquele que é mencionado podem ocorrer quando se pensa que o conjunto de informações publicadas – em quaisquer meios – e sua justaposição podem construir uma trajetória editorial de um autor, de um enredo, de uma história, de um evento, de um fato? Considerando que o ato da publicação eterniza, ainda que posteriormente sejam desmentidos, aspectos que se configurarão como o corolário de uma obra e/ou vida como um todo.

Pensando sempre na questão da autoria, esta enquanto conceito, sofreu, sofre e sofrerá eternas mudanças. Mas toda essa facilitação em torno do acesso à informação permite concluir que essa questão da autoria está longe de chegar a um consenso, a um fim.

Nos dias de hoje é possível ter acesso a uma série de informações sobre os autores, informções essas que ajudarão a compor, ou no limite, a estruturar o próprio conhecimento que se constrói acerca dos textos que escrevem.

E o que isso pode significar em termos práticos? O que toda essa discussão é capaz de revelar? Na verdade, subjaz uma questão primordial, de fulcral pertinência, engendrada pela sobreposição de todas essas questões e perspectivas: a veracidade/a importância/o tratamento atribuídos a uma determinada informação e/ou determinado conteúdo publicados em um determinado momento histórico.

O que resultará por influenciar diretamente aquilo que mais tarde conheceremos por voz autoral, por sua vez pautada por uma trajetória editorial de um determinado texto e/ou autor, portanto, tudo isso também fará parte desse grande e denso amálgama que representam os escritos de um autor localizado em um determinado tempo-espaço.

Finalizo não sem antes perceber que, para o bem e para o mal, a ideia original presente na obra de um autor pertence a ele e a mais ninguém, no entanto o que se dirá sobre ele, o entendimento que se terá sobre seus escritos, as vias por onde trafegarão, a maneira como surgirão compondo a memória compartilhada  pertencem às sociedades e às suas respectivas épocas. Apenas a elas. O que remete imediatamente a uma singela analogia: colcha de retalho. Antes, acreditava que o conhecimento, alimentado sob essa perspectiva de uma construção do saber, se constituía de acordo com o encadeamento de ideias, quase como um quebra-cabeça, em que peças se encaixam e se submetem a uma ordem maior preestabelecida, onde todas as peças possuem lugares marcados e predeterminados. Não, percebo que é justamente o contrário, ao se levantar a trajetória editorial de uma determinada obra ou autor: de acordo com o estabelecimento do conteúdo acerca dessa determinada obra ou autor é possível datar e/ou detectar traços incontestes sobre a sociedade em que isso tudo se concretizou, ou seja, cenários se evidenciam de acordo com o aspecto principal observado. Evidentemente não dissocio a produção do conhecimento com a língua em que foi produzido, de modo que, considerando uma perspectiva filológica, aprofundar a pesquisa tomando a questão da voz autoral, do estabelecimento do texto, e da propriedade da informação (sobre quem ou o quê circula a informação/quem e como veicula essa informação), no limite a escolha lexical se estabelece sobre essa nova transitividade da informação.

Fica claro que os desdobramentos da propriedade da informação são tão vastos quanto os domínios do campo em que circulam …


Veja mais em:

http://oglobo.globo.com/cultura/roth-a-wikipedia-6129149

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2012/09/an-open-letter-to-wikipedia.html

“O Fim do Livro”

O fim do livro já foi anunciado há mais de 150 anos

João Marcos Cardoso
Especial para o blog
Machado de Assis em 1864. Fotografia de Joaquim José Insley Pacheco (1830-1912). Arquivo da Academia Brasileira de Letras, http://www.academia.org.br

Em 1859, um jovem de 19 anos, defensor um tanto ingênuo dos princípios liberais e da crença inabalável no progresso que a eles se associava, publicou no jornal carioca Correio Mercantil dois artigos anunciando o provável fim do livro, cuja proeminência seria suplantada pelo jornal. O falso prognóstico dos textos e a juventude de seu autor teriam selado seu esquecimento se a assinatura Machado de Assis não os acompanhasse. Nesses dois artigos intitulados O jornal e o livro, não há praticamente nada que faça supor o grande autor de Memórias póstumas de Brás Cubas; ainda assim, tanto por suas virtudes quanto por seus defeitos, esses textos escritos por um Machado ainda crente nas ideologias de seu tempo têm muito a dizer sobre as mudanças do nosso tempo, que em vários pontos repetem os prenúncios do passado, como por exemplo o de que o livro em papel perecerá em breve.

Essas profecias já seculares interessam, em primeiro lugar, porque lá como aqui um meio de comunicação relativamente novo e promissor – a imprensa periódica no Segundo Império, as novas tecnologias de informação no séc. XIX – se desenha como uma ameaça a um meio que parece já não adequar-se a um novo ritmo histórico. Assim, diz Machado, o livro teria “alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal.”; é uma forma obsoleta que se depara com uma “locomotiva intelectual”. Contudo, olhando para trás, não há dúvidas de que apesar da “morosidade” do livro, ele não perdeu o passo da história diante da “presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual” que era o jornal impresso no séc. XIX. O dinamismo infinitamente potencializado das novas tecnologias de informação estariam em melhores condições para decretar o fim do livro, ao menos em sua forma tradicional?

As profecias interessam, em segundo lugar, porque Machado parece muito convicto de que a forma material pela qual o conhecimento é transmitido tem efeitos diretos na construção de seu sentido, na sua inserção em um dado meio social e cultural. Essa convicção é um dos pilares desses dois textos, pois em contraste com o livro, as características formais do jornal – “a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano” – estaria na base de uma “revolução na ordem social”: “O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização”. Aqui chega ao ápice a utopia liberal do jovem Machado de Assis, que via no jornal não só o arauto de um futuro democrático, mas sobretudo o agente que o realizaria. Não é preciso dizer que, olhando retrospectivamente, essa utopia se frustrou; nem o mais entusiasmado defensor do jornal impresso acredita ainda que ele possa realizar essa grandiosa missão.

Atualmente ninguém mais vê o livro e o jornal como rivais, mas ambos parecem ser ameaçados pelo espectro das novas tecnologias da informação, tidas e havidas por muitos como a melhor roupagem do espírito contemporâneo, e mais do que isso como a detentora de um novo projeto utópico. Esse novo formato do pensamento humano desbancará finalmente o livro (e o jornal) e realizará o projeto revolucionário em que o jornal fracassou um século e meio atrás? Algumas décadas depois da publicação desses dois textos, seu autor, já amadurecido e desencantado com as ideologias de seu tempo, talvez risse de seu otimismo juvenil e das predições que dele derivaram. O que diria o Machado maduro a respeito de predições contemporâneas que têm o livro como alvo e que são similares às da sua juventude por seu conteúdo e por seu otimismo?

Inteligência, criatividade, computação e ciência

Diagrama em: Samuel R. Wells. How To Read Character: A New Illustrated Handbook Of Phrenology And Physiognomy, For Students And Examiners; With A Descriptive Chart. Fowles & Wells: New York, 1873. hpp://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phrenologychart.png; Domínio Público.
Diagrama em: Samuel R. Wells. How To Read Character: A New Illustrated Handbook Of Phrenology And Physiognomy, For Students And Examiners; With A Descriptive Chart. Fowles & Wells: New York, 1873.

As fronteiras entre as assim chamadas ciências “exatas“, “naturais” e “humanas” tem perdido a nitidez em diversos campos de investigação; é certamente esse o caso da “Inteligência Artificial”. Um debate recente entre o linguista Noam Chomsky e Peter Norvig, diretor de pesquisas da Google, mostra os desafios epistemológicos deste campo de estudos dedicado à compreensão dos mecanismos da inteligência, e toca em alguns pontos interessantes para a reflexão sobre a relação entre as humanidades e as tecnologias computacionais, e quem vem sendo levantados também por algumas vozes críticas no campo das Humanidades Digitais.  Continue Lendo “Inteligência, criatividade, computação e ciência”