A ordem das coisas

Não que a razão tenha feito progressos; mas o modo de ser das coisas e da ordem que, repartindo-as, as oferece ao saber, é que foi profundamente alterado.”

Michel Foucault
em ‘As palavras e as Coisas’

(e também: Ler a prosa do mundo hoje)

23.000.000

Um levantamento realizado em 2012 (Pekel, 2012) calcula que 23 milhões de objetos (documentos avulsos, livros, gravuras, etc) de arquivos históricos haviam sido digitalizados até aquele ano – apenas na Europa. Este número é impressionante; mas mais impressionante ainda é saber que ele representa apenas uma parte de um processo a ser ainda potencialmente completado – pois segundo calcula Pekel, menos de 10% dos documentos em arquivos europeus já tinham sido digitalizados até então.

23.000.000.000

No ambiente da língua portuguesa, para ficar apenas entre as iniciativas já consolidadas e sediadas na Europa, vamos espiar a digitalização dos acervos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (http://antt.dglab.gov.pt) e da Biblioteca Nacional (http://bnd.bn.pt) em Portugal, segundo números que eu calculei em 2016:

182.151
documentos digitais na Torre do Tombo

25.000
documentos digitais na Biblioteca Nacional de Lisboa

Apenas alguns exemplos de tipos de documentos manuscritos portugueses encontrados on-line: livros manuscritos (crônicas, livro de horas, manuais), BN-PT; documentos de chancelaria (testamento de Dom Afonso), documentos notariais pessoais (notícia de Pelagio Romeu), outros documentos pessoais (carta ao ‘meu querido amigo do meu coração’ (17—); ‘receita particular para arroz de leite o qual se faz lá em aquela parte, e se me deu com grande segredo’ (18–)), ANTT.

Minha pergunta aqui, diante disso, é:

E agora?

Noutros termos – qual o sentido dessa exposição de milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões, bilhões de documentos digitais representando documentos medievais e renascentistas se, ao fim e ao cabo, não há milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões, bilhões de leitores para estes documentos? 

We need editors—lots of them.

We have before us a new model of intellectual life in general and especially within the humanities. We have valued scholarship that is difficult to produce and almost as difficult tounderstand. (…)

We have vast amounts of work before us…

We need to edit the entire record of humanity.

Brute digitization provides physical access to digital representations that are qualitatively more useful than anything possible in print—print publication constitutes only a small dimensional reduction of the space in which we now move. At least as important, we have at our disposal a growing set of analytical tools that can make these sources intellectually as well as physically accessible.


Gregory Crane. Give us editors! Re-inventing the edition and re-thinking the humanities, 2010. 

Como bem observa Crane (2010), as iniciativas de digitalização de acervos históricos no mundo inteiro ainda estão em crescimento, e isso pode tornar a relevância do trabalho filológico no meio digital cada vez mais clara para a comunidade acadêmica nos próximos anos. Acreditamos, com Crane, que o adensamento do volume de documentos históricos disponíveis em formato digital tende a levar a um crescimento da percepção da necessidade de transformar o material digitalizado em textos efetivamente trabalháveis – legíveis pelas pessoas, e processáveis pelos computadores. Assim, o gradual processo de aproximação entre o campo filológico e o campo computacional nos estudos históricos da língua portuguesa cujos primórdios observamos desde o final do último século deveria aparecer, no cenário atual, como horizonte em franca expansão.

O momento, portanto, pareceria mais que maduro para a reflexão sobre as rupturas (e as continuidades) produzidas pelo o tratamento computacional de documentos históricos na tradição do trabalho filológico e linguístico.

Nessa reflexão, o ponto que aqui desejo deixar marcado é: precisamos abandonar a ilusão de termos alguma escolha. Nós – filólogos e linguistas ocupados da história da língua – não temos escolha. Estamos inescapavelmente interpelados por milhões de documentos que precisam ser lidos, interpretados, ex-plicados, e-ditados, trazidos à luz com cuidado filológico.

A alternativa não se coloca pois é apavorante: a alternativa é deixarmos os documentos órfãos, e permitirmos que outros conduzam, sem a nossa participação, o processo avassalador e inexorável da ‘redocumentarização do mundo‘ (Pédauque, 2004). A alternativa é, portanto, nos tornarmos socialmente irrelevantes.

Para deixar isso claro trago um outro número brutal: segundo um cálculo da Collection Trust citado no estudo de Peker acima mencionado, a digitalização completa dos acervos das bibliotecas públicas da Europa movimentaria cem bilhões de euros.

€100.000.000.000

Estamos falando só das bibliotecas públicas da Europa. Não tenho dados para o cenário mundial, mas não importa – o ponto é que a digitalização é um negócio bilionário.

Tenho defendido que o acervo digital das bibliotecas públicas herda, do acervo físico, a qualidade de patrimônio público, e portanto vocação de conteúdo aberto, livre, e com função social (Paixão de Sousa 2010, 2013). Felizmente, nos últimos anos as principais instituições públicas do Brasil e do mundo têm repudiado o modelo corporativo que parecia desenhar-se, nos primeiros anos deste século, no sentido da entrega da responsabilidade pela digitalização de seus acervos para as mãos de empresas privadas. Não é demais, entretanto, ressaltar os princípios do acesso livre, e permanecermos atentos às investidas das grandes corporações no grande negócio que a digitalização pode se tornar.

Mas aderir aos princípios do acesso livre não basta: as instituições tradicionalmente guardiãs do patrimônio histórico das culturas escritas de cada país – as bibliotecas públicas, ligadas a governos ou universidades – precisam ser capazes de conduzir seus projetos de digitalização. Se não formarem os recursos humanos necessários para a condução desses projetos, estarão condenadas a uma posição de objetos, e não sujeitos, do processo. Assim, por conta das responsabilidades sociais envolvidas nos processos de digitalização, destacamos a importância do envolvimento das “instituições de origem” – tais sejam, as bibliotecas físicas – na formação desses acervos digitais. Esse envolvimento, entretanto, faz surgir importantes desafios.

A ‘biblioteca‘ é parte daquele grupo de ferramentas do conhecimento – arquivos, dicionários, catálogos, edições críticas…  – cuja criação e manutenção esteve, tradicionalmente, nas mãos dos humanistas, mas que sofreram intensas transformações nas últimas décadas. Tais transformações não tem sido sempre liderada pelas humanidades: ao contrário, em muitos casos as disciplinas tradicionais parecem estar trabalhando a reboque das áreas tecnológicas.

Isso vem produzindo dois tipos de consequência: há em alguns casos um espírito de atordoamento dos estudiosos das áreas de humanidades frente às inovações informáticas, muitas vezes acompanhado da negação e rejeição dos produtos dessa transformação.

Em outros casos, pesquisadores das áreas tradicionalmente ligadas ao trabalho com o texto e coma organização e representação da informação não só tem tomado as inovações como bem-vindas, mas, de fato, tem se portado como sujeitos da revolução informática, produzindo ferramentas, conceitos e metodologias característicos das disciplinas tradicionais inteiramente renovados pelas novas tecnologias. 

Um dos aspectos desse problema em torno do qual a necessidade da conjunção entre os saberes oriundos das disciplinas tradicionais das humanidades e as novas tecnologias está no passo que vai da exposição de um documento antigo para a leitura, sob forma digital, e sua efetiva leitura. Estaremos prontos para conduzir e liderar esse passo, ou ficaremos assistindo de longe?

Nessa encruzilhada, estou com Gregory Crane:
Chamando os editores!


Crane, Gregory. Give us editors! Re-inventing the edition and re-thinking the humanities. In Online Humanities Scholarship: The Shape of Things to Come, University of Virginia: Mellon Foundation, 2010-03. http://cnx.org/content/m34316/latest/

Paixão de Sousa, Maria Clara. Humanidades Digitais: O digital e as novas formas de construção do conhecimento. Comunicação ao Seminário Internacional Sistemas de Informação e Acervos Digitais de Cultura. Universidade de São Paulo, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, 11 a 13 de março de 2013. http://youtu.be/m0s-iAfZPDE 

Paixão de Sousa, Maria Clara.  O Leitor na biblioteca digital.  Comunicação ao II Seminário Mindlin: O Futuro das bibliotecas. Universidade de São Paulo, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, 10 de outubro de 2010. http://oleitornabibliotecadigital.wordpress.com

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