De laude scriptorum manualium

(uma provocação)

Sem os escribas, a escrita não estaria garantida por muito tempo; seria destruída pela sorte e corrompida pela passagem dos anos. O livro impresso é apenas um artefato de papel, e em pouco tempo se desintegrará inteiramente. Mas o escriba que desenha cuidadosamente as letras no pergaminho alonga a sua própria vida, e a das letras, por séculos. Irmãos! Nenhum de nós deve pensar, ou dizer, ‘Por que devo me cansar em escrever a mão, se a arte da imprensa trouxe já tantos livros à luz, de modo que podemos reunir uma grande biblioteca a tão baixo custo?‘ De fato, quem quer que diga isso está tentando apenas ocultar sua própria preguiça. Quem não sabe quão grande é a distância entre um livro manuscrito e um livro impresso? A escrita no pergaminho pode durar mil anos – mas no papel, quanto durará? Será já um grande feito se um volume de papel durar duzentos anos. 

A posteridade julgará esta questão.


Johannes Trithemius, De laude scriptorum manualium, 1492

Em 1492, cerca de quarenta anos depois do advento da imprensa, época em que a maioria dos eruditos ainda desprezava solenemente as reproduçõesmecânicas (Eisenstein, 1980), Johannes Trithemius escrevia “Em louvor aos escribas”, peça que tomo aqui como epígrafe para a nossa situação atual– quando, tendo se passado já quase meio século da invenção do hipertexto, ainda nos vemos desafiados por “novas” tecnologias que, entretanto, talvez já tenham nos tornando obsoletos.

Essa ode quatrocentista à cópia manuscrita pode evocar de modo bastante irônico algumas situações atuais, tais como aquelas lamentações sobre a “morte do livro impresso” que podem ser encontradas aos montes, hoje, “nas internetes”.

Pois o mais interessante do louvor aos escribas de Trithemius é que ele não circulou manuscrito, e sim impresso: já em 1494, e por vontade de seu autor; segundo Eisenstein (1980: 14-15) e Brann (1981), Trithemius preferiu essa opção por acreditar que seu texto, dessa forma, seria mais lido.

Detalhe de relevo na tumba de Johannes Trithemius. Neumünster, Alemanha. Artista desconhecido, 1516; fotografia de 2009, por CSvBibra.

Assim, depois de uma trajetória que envolveu algumas reimpressões, o livro do abade chegou ao século XX pela tradução mais conhecida, para o inglês, de 1974 (Trithemius, 1974). Entretanto, minha citação não vem dessa tradução de referência (de dificílimo acesso), e sim de uma segunda tradução para o inglês, feita por Dorothea Salo, disponível em diversos pontos da internet (Trithemius, 2010 – espalhada por cerca de 10.500 sites que podem ser encontrados em segundos, ao se buscar pelos termos Thritemius “In praise of scribes”, no portal Google) [1].

Ou seja – ao final, ironicamente, a posteridade julgou Trithemius duas vezes: uma no século XV, quando seu livro foi impresso; e outra, no século XXI, quando foi digitalizado.

Suas palavras em louvor à permanência do pergaminho, agora, circulam “no ciberespaço”, pulverizadas, incorpóreas, formando um alerta agridoce sobre a inexorabilidade das inovações tecnológicas.

Mas o fato de Trithemius ter mandado imprimir seu ‘De laude’, é, mais que irônico, muito revelador, pois indica o erro de uma análise rápida que o dispensaria como um conservador a impedir o progresso da tecnologia, e nos obriga a vê-lo, apenas, como um homem de seu tempo, com as mesmas limitações para enxergar sua contemporaneidade que nós hoje temos para enxergar a nossa.

Afinal Trithemius – aliás Johann Heidenberg (1462-1516), abade de Sponheim – foi um expoente da última geração do erudito medieval europeu, contemporâneo quase perfeito da própria invenção da imprensa (tal como as pessoas nascidas nos meados dos anos 1960 são quase exatamente contemporâneas à invenção da difusão digital). Entretanto foi, também, contemporâneo da primeira geração dos humanistas precursores da cultura impressa: pensemos em Aldo Manuzio (1450-1515) ,que, à época da composição do “De laude”, já estava ocupado em inventar o livro impresso moderno e fazer aposentarem-se os incunábulos (Satué, 2004).

Talvez o problema seja, então, mais profundo. Thritemius, cercado de copistas na sua abadia, não estava no melhor dos contextos para entender a imprensa na sua dimensão social: viu nela uma nova técnica, mas não a revolução de sua cultura.

E talvez nos esteja acontecendo algo muito parecido, hoje: aqui estamos,em nossos gabinetes nas universidades, tentando entender o texto digital como um novo instrumento – muitos de nós, como um instrumento bastante útil – mas não o estamos compreendendo na sua radicalidade. A utilidade do digital se revela mais facilmente para os estudiosos de hoje para quem“texto”, “edição de texto”, “codificação do texto”, não são apenas objetos de estudo, mas também ferramentas de trabalho. Talvez por isso, na filologia e na crítica textual o abraço às tecnologias digitais chegou antes que em outros campos das humanidades (embora não em todos os contextos – como trato em Paixão de Sousa, a sair, isso se dá bem tardiamente no caso da filologia portuguesa). Nesse campo, muitos estudiosos vêm se embrenhando nas tecnologias digitais desde as últimas décadas do século passado – como observam Crane et al. (2007), na área dos estudos clássicos, por exemplo,está já na idade madura a primeira geração de eruditos que nunca procurou uma palavra grega em outro lugar a não ser em um corpus eletrônico, e que explorou ao máximo as ferramentas digitais disponíveis nessa área desde os anos 1970 para a busca e reunião de fontes.

Entretanto, para os autores, essa foi uma apropriação oportunista das tecnologias: o campo da edição acadêmica ainda oferece como retorno à sociedade objetos do mundo impresso,e assim perpetua, no século XXI, a “audiência minúscula” do século XX [2].

Gradmann & Meister (2008) apresentam uma visão semelhante, ao salientar que hoje, embora mesmo os “mais ardorosos” defensores da difusão impressa já tenham se rendido às “vantagens pragmáticas” da difusão digital, o potencial encerrado no documento eletrônico ainda não foi plenamente explorado pelas humanidades. Assim como Crane et al. (2007), esses autores consideram que as disciplinas humanísticas ainda estão presas na mentalidade da produção impressa estabilizada nos últimos séculos – e, entretanto, chamam a atenção para o fato de que é justamente nelas que a desconstrução da noção de documento deveria ter seu maior impacto, tendo em vista que essa desconstrução toca o âmago das disciplinas para quem “documentos” são, a um tempo, ferramentas e objetos de estudo [3]. 

O que tanto Crane et al. (2007) como Gradman & Meister (2008) consideram a “fronteira inexplorada” da difusão digital nas humanidades é, a meu ver, antes de mais nada a exploração editorial plena da natureza descorporificada do documento digital.

Falo da propriedade, vislumbrada em Nelson (1965), como já vimos, de um texto “além do texto”, construído como um objeto sem limites lineares que possibilitasse a adição de infinitas camadas representativas do conhecimento. Alguns exemplos disso estão nos projetos que, recentemente, buscaram inventar (novas) formas de trabalhar o documento com o (antiquíssimo) propósito de explicá-lo (etimologicamente, desdobrando-o) em diversas camadas de sentido: desdobrando sua dimensão gráfica, sua dimensão léxica, sua dimensão sintática, sua dimensão semântica, sua dimensão discursiva (cf., entre outros, os projetos mencionado sem Siemens et al., 2008, ou Clement, 2011).

Tentativas, portanto, de adicionar, à codificação representacional normalmente aplicada ao texto, codificações de representações mais profundas, abrindo inúmeras possibilidades de exploração semiótica do texto a partir da manipulação computacional de suas estruturas.

Representações que, no momento, escapam a nosso horizonte de visão.

Notas:

[1] Tradução em inglês, de Dorothea Salo: “Without scribes, writing would not long persist safely, but would be shattered by chance and corrupted by age. The printed book is a thing of paper and in a short time will decay entirely. But the scribe commending letters to parchment extends his own and the letters’ lifespan for ages. Brothers, no one should think or say “Why do I have to wear myself out writing by hand, when the artof printing has brought so many books to light, so that wecan cheaply put together a great library?” Truly, whoever says this is trying to conceal his own sloth. Who doesn’t know how great is the distance between a scribed and a printed book? The scripture on parchment can persist a thousand years, but on paper, how long will it last? It’s a great thing if a paper volume lasts two hundred years;but many are those who judge that their own texts ought to be printed. Posterity will judge this question.”

[2] “Nevertheless, the inertia of prior practice has preserved intact the forms that evolved to exploitthe strengths and minimize the weaknesses of print culture: we create documents thatslavishly mimic their print predecessors; we send these documents to the same kinds of journalsand publishers; our reference Works and editions have already begun to drift out of datebefore they are published and stagnate thereafter; even when new, our publications are staticand cannot adapt themselves to the needs of their varying users; while a growing, globalaudience could now find the results of our work, we embed our ideas in specialized languageand behind subscription barriers which perpetuate into the twenty-first century the minisculeaudiences of the twentieth”. Crane et al. (2007)

[3] “However, the de-construction of the ‘document’ notion in digital, networked settings vitallyaffects the SSH in a very specific way. This process fundamentally changes the conditions ofproduction and publication as well as the conditions of apprehension and reuse of scholarlydocuments. The consequences touch the very core of scholarly work which in both of its mainstrands of work is fundamentally concerned with documents both as objects and as instrumentsof scholarly activity”. Gradmann & Meier (2008: 146).

Referências:

EISENSTEIN, Elizabeth. The Printing Press as an Agent of Change. Cambridge: Cambridge University Press, 1980.

SATUÉ, Enric. Aldo Manuzio: Editor, Tipógrafo, Livreiro. Trad. ClaudioGiordano. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004.

TRITHEMIUS, Johannes. In Praise of Scribes. Trad. Kan Lawrence. Coronado Press, 1974.

TRITHEMIUS, Johannes. In: Excerptsfrom Johannes Trithemius, In Praise of Scribes. Trad. Dorothea Salo, 2010. http://misc.yarinareth.net/trithemius.html

(e demais em Bibliografia)

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