Ler “A Prosa do Mundo” hoje

Campanella, De Sensu Rerum et Magia Libri Quatuor
T. Campanella, De Sensu Rerum et Magia Libri Quatuor, 1620

Como apoio para as conversas na nossa Roda de Leitura desse mês, preparamos uma lista de reproduções digitais de dezessete livros citados por Michel Foucault em A Prosa do Mundo, o capítulo II de As Palavras e as Coisas. Esta lista inspira um comentário.

Imagino a leitura de A Prosa do Mundo acontecendo na forma de pelo menos dois gestuais, cada um deles compondo uma experiência inteiramente singular (como, de resto, acontece com qualquer leitura – mas aqui condenso este caso, acompanhando nossa Roda). O primeiro gestual seria o de quem percorre o texto do início ao fim sem suspender seus olhos. O segundo seria o de quem interrompe o percorrer do texto a cada tanto, e suspende os olhos em busca das obras comentadas por Foucault.

Fisiologia do olho humano, Al-Hazem, 1572.
Fisiologia do olho humano, Al-Hazem, 1572. (*)

Esse segundo gestual – vamos chamar de gestual da suspensão do olhar – pode ainda incluir dois ‘subtipos’: aquele em que o olhar suspenso do texto se volta para dentro do leitor, ou seja, para sua memória das obras citadas; e aquele em que o olhar suspenso efetivamente se desvia, deixando momentaneamente as páginas escritas por Foucault para contemplar as páginas das obras que ele cita. O gestual do olhar que se suspende para voltar-se para dentro, desconfio, é o mais incomum – pois esse leitor que guarda em sua memória a experiência da leitura das vinte e três obras comentadas nesse capítulo, versando da alquimia à gramática,  é um leitor incomum. Podemos desconfiar também que o leitor que a cada tanto desvia seus olhos do texto para as páginas das obras citadas seria também um leitor incomum, se consideramos a raridade dos livros referidos nesse capítulo, escritos entre 1555 e 1674. Podemos imaginar esse leitor no gabinete de uma biblioteca particular excepcional, ou numa sala de leitura de uma grande biblioteca europeia – talvez na Biblioteca Nacional da França, que guarda a maior parte das obras citadas por Foucault (mas não todas elas).

Assim, talvez tenham sido muito poucos os leitores que, desde 1966, puderam aplicar à leitura de A Prosa do Mundo o gestual da suspensão do olhar, seja a suspensão voltada para as páginas da memória ou para outras páginas.

Entretanto, hoje, mais de quarenta anos depois da primeira edição de As Palavras e as Coisas, uma boa parte dos livros comentados por Foucault  (dezessete dos vinte e três de em A Prosa do Mundo, pelo menos) está disponível em bibliotecas digitais com acesso livre, como mostra a nossa lista. Assim, a possibilidade do gestual de suspensão do olhar se abre para o leitor que não tem entrada nos gabinetes dos colecionadores e nem nas grandes bibliotecas europeias, mas que tenha recurso a um computador com acesso à internet. O universo inaugurado por essa possibilidade é imenso; aqui só queria comentar a dimensão dos gestos.

Esse leitor pode, agora, experimentar Foucault pelo gestual da leitura de suspensão do olhar. Para ele, a Biblioteca Nacional da França, a Biblioteca da Universidade de Bolonha ou da Universidade de Munique, tornaram-se lugares próximos, separados pelo movimento de um dedo – de modo que o gesto de desviar o olhar é agora um gesto sem custo, fácil, curto, que percorre o espaço entre a página de um livro sobre a mesa e a tela de um computador (ou mesmo entre uma janela e outra do computador, se o próprio texto de Foucault estiver em forma digital).

Os gestos são de fato tão sutis, são feitos com tanta leveza, tão sem esforço, que se tornam nada mais que um prazer lúdico em alguns casos – podemos nos dar ao luxo de olhar apenas as figuras…

Ulisse Aldrovandi, Monstrorum historia
Equus marinus monstrosus. In Ulisse Aldrovandi, Monstrorum historia…, 1647

… os monstros no livro de Aldrovandi, os rostos animalescos no de de Giambattista Della Porta,  as aves coloridas no de Pierre Belon …

G. Porta, La Physionomie humaine, 1655
G. Porta, La Physionomie humaine, 1655
L'Histoire de la nature des oyseaux, Pierre Belon, 1555
Cygnus – Olor – Cygne. In L’Histoire de la nature des oyseaux, Pierre Belon, 1555

Esse ir e vir dos nossos olhares entre o texto de Foucault e as obras que ele comenta de certo modo se aproxima da imagem a que recorri mais acima, do leitor erudito encerrado num gabinete de leitura excepcional. Mas, à diferença dele, nós sentimos ao alcance dos dedos todas as bibliotecas do mundo – e nossos momentos de suspensão parecem poder se repetir indefinidamente, ágeis, leves. Tão ágeis, tão leves, que o olho muitas vezes perde o caminho de volta, e já não estamos mais lendo As Palavras e as coisas, mas sim nos maravilhando com as 11.600 imagens que nos chegaram pelo navegador quando buscamos: “Aldrovandi – Dragons”, inspirados pelo seu fantástico Serpentum, et draconum historiae

Mas se conseguimos voltar ao texto, depois nossos gestos de desvio lúdico apenas para “olhar as figuras” – as palavras de Foucault não parecem mais vivas? Seu texto não parece agora reluzir, iluminado pelas pelas gravuras de mil criaturas e esquemas fantásticos? 

O corpo do homem é sempre a metade possível de um atlas universal. Sabe se como Pierre Belon traçou, até nos detalhes, a primeira tábua comparada do esqueleto humano com o dos pássaros: ali se vê ‘a ponta da asa chamada apêndice, que está em proporção com a asa, com o polegar, com a mão; a extremidade da ponta da asa, que é como nossos dedos (…); o osso, tido como pernas para os pássaros, correspondendo ao nosso calcanhar; assim como temos quatro dedos pequenos nos pés, assim os pássaros têm quatro dedos, dos quais o de trás tem proporção semelhante à do dedo grande do nosso pé’.” (pp. 29-30 da edição de 2000)

Portraict de l'amas des os humains - L'histoire de la nature des oiseaux
Portraict de l’amas des os humains – L’histoire de la nature des oiseaux, P. Belon, 1555
Portraict des os de l'oyseau -
Portraict des os de l’oyseau – L’Histoire de la nature des oyseaux, P. Belon, 1555

Não podemos agora percorrer melhor alguns meandros deste capítulo intensamente pictório, como por exemplo a passagem sobre a analogia entre os esqueletos do homem e dos pássaros no livro de Belon (reproduzida acima, seguida das imagens da Bibliothèque Interuniversitaire de Santé)? E, nesse sentido, será que afinal não nos aproximamos do gestual do antigo leitor no gabinete repleto de raridades?

Ou será que esse nosso gestual de suspensão pontuado de saltos curtos, rápidos, leves, instaura irreversivelmente uma nova forma de leitura – e com ela, uma nova Prosa do Mundo?


(Acessar a lista das obras, com as referências completas das figuras)

Atenção! O título desse post é um pastiche do título do famoso ensaio de Michel Pêcheux, Ler o Arquivo Hoje, incluído no livro Gestos de Leitura, de Eni Orlandi (de quem também suguei a idéia dos gestos). Veja a bibliografia completa aqui


(*) Créditos dessa Figura: TOSSATO, Claudemir Roque. A função do olho humano na óptica do final do século XVI. Sci. stud., São Paulo, v. 3, n. 3, Sept. 2005.

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7 opiniões sobre “Ler “A Prosa do Mundo” hoje”

  1. Nossa! A possibilidade “do nosso gestual de suspensão/ de desvio lúdico”, que se dá pelo simples ato de um clique, só pode existir no e pelo distanciamento espacial. Pois, caso contrário, ou nós as teríamos (as obras) ao nosso alcance físico ou as teríamos na memória, tornando desnecessária a sua digitalização. A isto chamamos hoje humanidades digitais!!!

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