Análise e visualização de redes: o Gephi

Modelo de visualização por algoritmo  (mais modelos em https://gephi.org/features)
Modelo de visualização em Gelphi por algoritmos múltiplos (mais em https://gephi.org/features)

O desenvolvimento de novas formas de visualização de informações tem sido uma das áreas mais ativas nas humanidades digitais. Já comentamos, aqui no blog, as técnicas de representação textual em nuvens de palavras. Mas entre os projetos voltados para a manipulação de dados históricos, espaciais e textuais, destacam-se os que fazem uso de ferramentas baseadas em grafos para a visualização de redes.

A ferramenta para manipulação de grafos mais utilizada tem sido o Gephi, um software livre colaborativo mantido por um consórcio sediado na França, com  inúmeras aplicações em áreas como as ciências biológicas ou a economia – aqui, comentamos sua utilização em projetos ligados à história e à análise textual.

Um dos primeiros projetos a fazer uso do Gephi para dados históricos é o mapeamento da República das Letras – Maping the Republic of Letters, sediado na Universidade de Stanford.

Cartografia de “Mapping the Republic of Letters” (visualização de conexões)

O projeto, que se dedica ao estudo da formação da rede de correspondências entre letrados dos séculos XVII e XVIII, criou o banco de dados Electronic Enlightenment, composto por milhares de cartas (de fato, 55.000 cartas, envolvendo 6.400 correspondentes); em 2009, em colaboração com cientistas da computação, foi lançada uma plataforma para a visualização da rede formada pela troca dessa correspondência, usando Gephi. Como destacam D. Chang e colegas no artigo Visualizing the Republic of Letters, a manipulação dos dados para sua representação visual fundada em grafos envolve questões metodológicas e epistemológicas importantes – dentre as quais se destacaria a pergunta sobre seus impactos sobre a perspectiva interpretativa dos próprios cientistas humanos. De que modo esses acadêmicos treinados e experientes na leitura vertical e aprofundada de documentos isolados darão sentido aos padrões formados pela junção, em rede, de grandes conjuntos de dados? –  ou, nas palavras dos autores: “How can humanities scholars trained in close reading of individual documents make sense of patterns in large sets of data?”

Uma pergunta que pode ser tomada como o avesso dessa é a que guia algumas das pesquisas realizadas pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) dedicadas a compreender os sentidos que se formam pela relação remissiva entre os pequenos textos que circulam hoje nas chamadas redes sociais.

TodaRede
Cartografia do Labic – “Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças”

Também através da visualização em Gephi, algumas das “cartografias” de redes sociais realizadas no laboratório têm mostrado como as redes se formam em torno de alguns “nós” principais, que propõem, disseminam e moldam a circulação dos sentidos – em especial, no caso dos textos publicados no Twitter em torno de assuntos e figuras políticas (veja-se, por exemplo, Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças). Os estudos sobre as redes sociais realizados neste laboratório, ativo desde 2008 na Universidade Federal do Espírito Santo, são exemplo de uma linha cada vez mais intensa de estudos ao redor do mundo sobre a circulação dos sentidos nas redes sociais (em especial, no campo da política), muitos deles lançando mão de ferramentas para visualização de dados em grafos (veja-se uma lista extensa na própria wiki do Gephi).

Na área dos estudos textuais de um modo mais geral, as técnicas de visualização em grafos têm sido aplicadas sobretudo em estudos voltados para grandes volumes de textos – para um exemplo muito interessante, veja-se o artigo Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis, de Dmitry Paranyushkin.

Grafo em "Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis", de Dmitry Paranyushkin
Grafo de uma rede de textos em “Identifying the Pathways for Meaning Circulation using Text Network Analysis”, de Dmitry Paranyushkin

Novamente, surge a questão da calibragem do olhar: o passo entre a perspectiva (digamos) mais fina pela qual filólogos, linguistas e críticos literários acostumaram-se a ler o texto, e a perspectiva (tentemos de novo) amplificada pela qual podemos, hoje, analisar grandes conjuntos de textos (de fato: pela qual podemos visualizar relações entre textos em grandes conjuntos) – é um passo que determinará uma nova leitura? Tratamos nisso outras vezes neste blog, neste post, e especialmente neste outro; há também uma discussão muito interessante sobre o assunto no blog The Dragonfly’s Gaze: Computational approaches to literary text analysis.

Para muitos, o uso de novas técnicas para manipular e apresentar grandes volumes de dados levam a novas possibilidades de análise – pois construir uma representação, naturalmente, é propor uma interpretação.  Assim, os projetos dessa área constituem um exemplo marcante da complexidade envolvida na relação entre as tecnologias digitais e as humanidades: as tecnologias computacionais são, ao mesmo tempo, “ferramentas úteis” na construção do conhecimento e determinantes da construção do conhecimento.

Links de interesse

Artigos

BASTIAN, M (2009), Gephi : An Open Source Software for Exploring and Manipulating NetworksAAAI Publications, Third International AAAI Conference on Weblogs and Social Media, retrieved 2011-11-22

CHANG, Daniel et al. (2009) Visualizing the Republic of Letters. http://www.stanford.edu/group/toolingup/rplviz/papers/Vis_RofL_2009

W. G. Thomas, III. Computing and the historical imagination. In Companion to Digital Humanities, eds. S. Schreibman, R. Siemens,
and J. Unsworth, Wiley-Blackwell, Malden, MA. 2008.

SINCLAIR, Stéfan (et al). Information Visualization for Humanities Scholars, In Literary Studies in the Digital Age, NY: Modern Language Association.

Páginas e tutoriais

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