As dimensões da escrita

Followtheseinstructions, Flickr, 19 de agosto de 2012 Bélgica
Followtheseinstructions, Flickr, 19 de agosto de 2012 Bélgica

Desde o início dos tempos a escrita e suas diversas formas representavam o ponto nevrálgico da disseminação do conhecimento. É interessante notar que ainda hoje continua a desempenhar papel central em diversos âmbitos.

Nestes novos tempos digitais, nem tão novos assim, a escrita continua a ocupar o centro. Muitos dirão que não, que mudou demais para que se faça tal afirmação. No entanto mesmo que transfigurada pelo “internetês” é interessante como se faz necessária para expressar e comunicar conteúdos e percepções. Curioso também é o uso de caracteres para expressar emoções. Os tão conhecidos emoticons parecem não dar conta de toda a complexidade e sofisticação que modelam a linguagem no contato diário e imersivo que a Internet provém com sua tão costumeira profusão de conteúdo.

Tão sedutor quanto preocupante é o efeito causado por tal profusão de conteúdo. A questão-chave que a escrita literalmente carrega consigo é aquela relativa aos campos de busca nos acervos digitalizados. É necessário lembrar que muitas vezes o conteúdo digitalizado é composto por letras que não possuem caracteres correspondentes modernos em línguas atuais. O resultado disso é a dificuldade em se encontrar determinados textos. É sempre útil lembrar que, na maioria dos casos, em diferentes épocas, os envolvidos na elaboração e na composição dos caracteres, analógicos ou digitais, estavam diretamente ligados ao design, não priorizando aspectos fonéticos, fonológicos e filológicos.

Considerando toda essa problemática, se faz mister estabelecer uma curadoria de conteúdo entre os itens de acervos digitalizados, com o objetivo de dirimir todas as eventuais dificuldades que surgirão ao mesmo tempo em que toma lugar este novo paradigma.

Tal curadoria iria perpassar diversos aspectos, dentre eles a noção de clássico, seria aquele mais afetado, pois esse movimento retomaria alguns já existentes e evidenciaria outros menos prestigiados até o momento. A trajetória editorial de muitos clássicos, em suas respectivas épocas, se evidenciaria, o que permitiria descobrir e identificar os diferentes momentos pelos quais esses clássicos se consolidaram ou não. Isso significa que uma outra perspectiva para a análise se descortina a partir da curadoria de conteúdos no campo das Humanidades Digitais.

Evidentemente essa perspectiva não se limita apenas em si mesma. Existe ainda um outro aspecto, aquele relacionado às dimensões da escrita. Técnica que se acomoda a todas as transformações, vicissitudes e (re)evoluções pelas quais passam os suportes. Sempre é importante lembrar que corriqueiras mudanças se transformam em avanços tecnológicos com o passar do tempo, o que resulta por reescrever a história de todo o material cultural produzido. É um movimento interessante: (i) existe o registro físico, (ii) a circulação concreta de ideias, (iii) uma adaptação da língua e do suporte primeiramente adotados e (iv) circulação imprevisível, inimaginável e sem precedentes.

Um exemplo ilustra bem essa questão da dimensão da escrita: iluminuras quando surgiram se prestavam a um círculo extremamente restrito de circulação, não é exagero afirmar que existia uma espécie de aura mítica, sagrada, transcendental inalcançável à nossa compreensão moderna. O fato da circulação de textos e livros ter sofrido tantas mudanças, quanto o próprio suporte em si, moldou, em certa medida, a formação de uma memória coletiva. Essa transmissão ficou a cargo da escrita. Pois esse mesmo objeto, antes sagrado e restrito, agora é sujeito e símbolo de uma coletividade amorfa, a Internet; isso sem deixar de considerar todas as mudanças e transformações observadas no próprio suporte.

Com o devido recuo no tempo para análise, será, no mínimo, inquietante investigar e comparar a transformação da escrita desde o seu surgimento e explorar toda a sua potencialidade, afinal talvez, partindo de todas essas considerações, possamos concluir que a escrita se transforma, enquanto técnica, na mesma medida em que se transforma a nossa essência.

Steve Juvertson, Flickr, 20 de setembro de 2012
Steve Juvertson, Flickr, 20 de setembro de 2012
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