O dossiê biográfico nas Viagens Filosóficas

Dentro do grupo “Viagens, arte e ciência no Mundo Português” – no contexto dos nossos projetos na linha de História da Ciência –, a leitura da obra de Dosse surgiu como norteadora para a criação de um dicionário biobibliográfico, dentro do site da Biblioteca Brasiliana USP, com a finalidade de compilar os estudos realizados no mestrado e doutoramento da professora Ermelinda Moutinho Pataca.

Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
“Que arvore temos [na Europa], que possa por si só formar um bosque, como a bananeira, Rainha de todas, que abrange com seu império todas as três partes do mundo, África, e Ásia, e as Províncias subtropicais da América”. (Fazendeiro do Brasil, 1798).
Imagem: Musa do paraiso (Bananeira da Terra). Viana, Manuel Luís Rodrigues, 1770-? . Parte de Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus nitratos, segundo as melhores memorias estrangeiras, que se tem escripto a este assumpto (Estampa 13). Acervo da Brasiliana Digital.
O projeto pretende que a inserção do dicionário não apenas transmita informações de modo acumulativo, mas contribua para a comunicação entre diferentes conhecimentos que possam se encontrar nestas, e através destas, memórias.

A obra biográfica configura-se como gênero híbrido, travando uma busca pela imortalidade de seus personagens através do modo escrito. Esta “imortalidade” é gerada, então, não apenas pelos fatos concretos, que o biógrafo encontra documentado, mas por fatos que se ligam à memória – tanto a memória do autor sobre seus personagens, quanto por uma possível memória social – e, além deste, outro importante ingrediente é a empatia (ou falta de) entre a figura do narrador e do sujeito narrado.

Essa relação entre biógrafo e biografado transmite a importância da figura narrada: o fazer e refazer biografias de uma mesma personagem revela essa necessidade de ressaltar a importância de sua vida. A importância não se dá apenas pela incompletude da trama (já que cada biografia escolhe e anula certas informações), mas varia de acordo com os interesses contextuais da sociedade na qual o livro é escrito.

Desta maneira, a obra de François Dosse, “O desafio Biográfico”, compila a história da biografia, desde seu uso para ressaltar figuras exemplares – como heróis e santos – passando por um hiato biográfico, até o ressurgimento do gênero, e sua ascendência nas últimas décadas, revelando a importância da “memória de vida registrada”, seja como contribuição para a compreensão de uma vida isoladamente, ou então, enquanto meio para entender fatores que incentivaram movimentações históricas ao longo do tempo.

Neste contexto, por meio das biografias dos viajantes, tentaremos contribuir para uma visão ampliada dos quadros e imagens que a História Oficial do Brasil nos oferece. O acréscimo e disponibilização de tais informações relacionar-se-ão com os parâmetros de criação de nossa própria identidade, enquanto brasileiros. Este percurso de estudo do individual para enxergar sua contextualização social e, assim, o retorno ao individual para avaliar suas singularidades, nos ajudará a voltar ao nosso próprio interior, ou seja, nossa identidade cultural.

A partir da biografia dos viajantes Alexandre Rodrigues Ferreira e do Frei José Mariano da Conceição Veloso, iremos traçar as viagens filosóficas e as relações estabelecidas entre estudiosos, naturalistas, desenhistas, engenheiros, militares e governantes que contribuíram ricamente para os estudos científicos brasileiros entre os séculos XVIII e XIX.

Criaremos, assim, redes de relações e diálogos que eram travados entre os naturalistas, de modo a conhecer a formação e as metodologias de pesquisa criadas na época, no que se refere às Viagens Filosóficas. Para expressar tais relações, a escolha pelas biografias modais nos ajudará a compor nosso dicionário, pois seu estilo leva à compreensão do indivíduo ilustrado pelo coletivo. No caso das Viagens Filosóficas luso-brasileiras, ressalta-se o grupo social por concepções científicas, estéticas, políticas e sociais dos viajantes, que se encontram presentes em textos, cartas, guias para peregrinos, publicações de diário de viagens, mapas, iconografias, entre outros, e a relação obtida entre esses dados com a História das Ciências no Brasil.

A rede de relações será formulada, no dicionário, a partir da ideia de biografemas, na qual o momento instantâneo se registrará não pela linearidade dos fatos, mas por recortes temporais e espaciais a ser definidos na leitura dos materiais analisados, ampliando as fontes de informações para os estudos sobre a História do Brasil.

Na construção do dicionário biobibliográfico dentro do site da Brasiliana-USP, criamos quatro parâmetros que norteiam a elaboração dos textos no Projeto dos Viajantes: i) criatividade; ii) conteúdo; iii) inovação; e iv) comunicação. Os quatro itens são intersectivos, colaborando para a eficácia de nosso projeto em âmbito geral.

A criatividade é o parâmetro número 1, pois, através dela, elaboraremos meios de repassar os conteúdos (item 2) com a qualidade exigida e a dinamicidade que nos é oferecida, pensando no suporte virtual e dinâmico que abrigará o dicionário. Neste ínterim, propomos a criação de um mapeamento dessas viagens, nas quais as relações serão georeferenciadas através das perspectivas espaço-temporais.

A dinamicidade do meio virtual atravessa o item 3, de inovação, através de conceitos não abordados por Dosse, porém, com o intuito de encontrar novos meios para transmissão do conteúdo do dicionário não apenas aos grupos de pesquisadores especialistas no assunto – acadêmicos ou não – mas também visando um público de pesquisadores “amadores”, que busquem incrementar seu rol de conhecimentos na área.

Para isto, o quesito 4, de comunicação, se torna nosso foco principal, no qual elaboraremos a junção dos três itens anteriores, de modo que funcionem ativamente e não apenas como um banco de dados depositado na rede. A realização destes quatro parâmetros é essencial para a disseminação do que compreendemos como nossa colaboração para as Humanidades Digitais: pelo uso de ferramentas digitais modernas, como os metadados e a criação de marcações nos textos a ser mapeados, repensaremos a construção de uma identidade social na constituição de nosso país. Assim, a disponibilização destes conteúdos requer a comunicação com o público-alvo (e o aumento deste), justamente para que esta seja uma ferramenta somatória quando pensarmos em História e Formação do Brasil.

A criação do dicionário biobibliográfico não deve ser considerada um fim, entretanto, para a compreensão da História. O objetivo principal é a revisitação e a releitura dos dados construídos ao longo do tempo, os quais serão analisados e interpretados de modo heterogêneo e contínuo, em diferentes sociedades. A ideia de uma verdade plena não se concebe nesse pensamento, portanto, como define Dosse (2009:408): “A verdade sempre foi a ambição da escrita do historiador, ainda que seu modo de objetividade permaneça para sempre incompleto, enunciando-se numa linguagem sempre equívoca, tensionada entre o passado e o presente, a partir de uma subjetividade implícita num lugar e numa prática”.

Deste modo, o enigma da biografia sobrevive à ideia de uma biografia plena, ou seja, sempre há possibilidades para novas interpretações e revisitações das mesmas. As análises do grupo dos Viajantes ampliarão o conjunto de dados para pesquisas, através dos links criados na sistematização das referências compiladas pela professora Ermelinda Pataca, facilitando o acesso às informações mapeadas.


Texto por: Cristiane Borges de Oliveira (bolsista Aprender com Cultura e Extensão, Projeto Implementação de bancos de dados para dicionário bio-bibliográfico de viajantes portugueses na biblioteca Brasiliana USP  – graduada em Letras pela FFLCH-USP) e Fernanda Félix da Conceição (bolsista Ensinar com Pesquisa – graduanda em Pedagogia pela FE-USP,  Projeto “Projetos e práticas educativas de Frei José Mariano da Conceição Veloso”)

Referência: DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma vida. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: EDUSP, 2009.

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