O enredo que tece a história

Philip Roth
Philip Roth Unfinished. Desenho de France Belleville. Fonte: Wagonized, http://wagonized.typepad.com/wagonized/2006/09/everyman.html

A voz autoral, sempre intrigante, sofre uma série de alterações de acordo com as edições e reimpressões que uma determinada obra recebe. Atualmente, com uma intensificada circulação de informações, é possível ter acesso a fatos acerca de autores, tramas e, até mesmo, a informações sobre o autor.

Esse texto complementa as discussões ocorridas em muitas das sessões  do GP HD sobre o papel do autor. Esse texto aborda especificamente uma informação sobre o autor em questão, Philip Roth, veiculada em um site de amplo e vasto acesso. O que chama mais a atenção sobre esse fato, aparentemente corriqueiro, foi a forma como uma informação sobre esse autor foi selecionada para fazer parte de um conjunto mais abrangente, sobre o próprio autor em questão, que contaria com informações mais detalhadas a respeito dele e de sua obra.

O que realmente chama a atenção na notícia contida nesse link é que o autor não é o “proprietário” das informações a respeito de si próprio. Confuso? Improvável? Inverossímil? Sim.

O que eventos, como esse, são capazes de evocar são considerações relevantes sobre a propriedade de informação: até que ponto aquele a que se referem as informações é capaz de ter autoridade e propriedade sobre sua divulgação e seu uso?

Outra questão, também igualemente relevante, se coloca: que desdobramentos essas intervenções à revelia daquele que é mencionado podem ocorrer quando se pensa que o conjunto de informações publicadas – em quaisquer meios – e sua justaposição podem construir uma trajetória editorial de um autor, de um enredo, de uma história, de um evento, de um fato? Considerando que o ato da publicação eterniza, ainda que posteriormente sejam desmentidos, aspectos que se configurarão como o corolário de uma obra e/ou vida como um todo.

Pensando sempre na questão da autoria, esta enquanto conceito, sofreu, sofre e sofrerá eternas mudanças. Mas toda essa facilitação em torno do acesso à informação permite concluir que essa questão da autoria está longe de chegar a um consenso, a um fim.

Nos dias de hoje é possível ter acesso a uma série de informações sobre os autores, informções essas que ajudarão a compor, ou no limite, a estruturar o próprio conhecimento que se constrói acerca dos textos que escrevem.

E o que isso pode significar em termos práticos? O que toda essa discussão é capaz de revelar? Na verdade, subjaz uma questão primordial, de fulcral pertinência, engendrada pela sobreposição de todas essas questões e perspectivas: a veracidade/a importância/o tratamento atribuídos a uma determinada informação e/ou determinado conteúdo publicados em um determinado momento histórico.

O que resultará por influenciar diretamente aquilo que mais tarde conheceremos por voz autoral, por sua vez pautada por uma trajetória editorial de um determinado texto e/ou autor, portanto, tudo isso também fará parte desse grande e denso amálgama que representam os escritos de um autor localizado em um determinado tempo-espaço.

Finalizo não sem antes perceber que, para o bem e para o mal, a ideia original presente na obra de um autor pertence a ele e a mais ninguém, no entanto o que se dirá sobre ele, o entendimento que se terá sobre seus escritos, as vias por onde trafegarão, a maneira como surgirão compondo a memória compartilhada  pertencem às sociedades e às suas respectivas épocas. Apenas a elas. O que remete imediatamente a uma singela analogia: colcha de retalho. Antes, acreditava que o conhecimento, alimentado sob essa perspectiva de uma construção do saber, se constituía de acordo com o encadeamento de ideias, quase como um quebra-cabeça, em que peças se encaixam e se submetem a uma ordem maior preestabelecida, onde todas as peças possuem lugares marcados e predeterminados. Não, percebo que é justamente o contrário, ao se levantar a trajetória editorial de uma determinada obra ou autor: de acordo com o estabelecimento do conteúdo acerca dessa determinada obra ou autor é possível datar e/ou detectar traços incontestes sobre a sociedade em que isso tudo se concretizou, ou seja, cenários se evidenciam de acordo com o aspecto principal observado. Evidentemente não dissocio a produção do conhecimento com a língua em que foi produzido, de modo que, considerando uma perspectiva filológica, aprofundar a pesquisa tomando a questão da voz autoral, do estabelecimento do texto, e da propriedade da informação (sobre quem ou o quê circula a informação/quem e como veicula essa informação), no limite a escolha lexical se estabelece sobre essa nova transitividade da informação.

Fica claro que os desdobramentos da propriedade da informação são tão vastos quanto os domínios do campo em que circulam …


Veja mais em:

http://oglobo.globo.com/cultura/roth-a-wikipedia-6129149

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2012/09/an-open-letter-to-wikipedia.html

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